domingo, 30 de dezembro de 2012

Rasgo animalesco

Penso que já não sei do que é que sou feito, de que massa áspera e dura é que me revisto, que coisa me faz rir e me faz chorar. Começo, como toda a gente, a perder o sentido de si próprio, a afundar-me na monotonia de ser só um corpo, rios de sangue, orgãos e neurónios. Afinal, quem devíamos ser senão isso, humanos, mortais, estragados pelas visões dos outros, sem nunca ser quem realmente desejamos ser. Se um míudo quer ser astronauta, é louco e será caixa no pingo doce.
Que rídiculo este munduzinho, este vestido que trajamos todos os dias que saímos à rua fria, sem nunca podermos estar verdadeiramente nus, devido ao escândalo que isso traria. E as opiniões...Nem me falem, temos que sempre apresentá-las uma e nunca variar, somos troca tintas se o fizermos, sacaninhas pulando entre o melhor de dois mundos.
No fim, nem sei porque estou tão irritado, a sociedade é assim, eu sou assim, a vida tem prazo de validade e nós estamos sempre com ânsia que ele chegue. Enfim, mais valia nascer animal, senão nascemos já.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O primeiro homem


Era uma vez, num tempo mais remoto que aquele em que os Deuses viviam na terra, um mundo cego onde as pessoas viam, mas que apenas se limitavam a isso. Era tudo como uma bola cinzenta sem esperança e sem rumo que rodava em volta do nada, um planeta distante daquele que vemos pelas imagens espaciais das agências internacionais e, por incrível que nos pareça, o mais parecido com aquele em que habitamos. Estranho este desfilar de antíteses, este corredor de contradições que se estende desde o início da história, mas percebamos que a vida é isso e que as histórias, tal como a vida em si, são desfiles de metáforas e figuras de estilo elaboradas que só chegarão a ser compreendidas quando acabam.E nesse tempo, nesse mundo distante e próximo, vivem homens e mulheres de feições semelhantes aos de hoje, bem arranjados, cansados, de certa forma mendigos de um sistema computorizado, de semblante carregado. Os homens sempre com a miserável pastinha preta na mão direita, chapéu de coco na cabeça, bigodes, quem os tem, encerados, mas maior parte dos especimens masculinos nem bigode têm, apenas uma cara escanhoada na perfeição, cinzenta-esverdeada de raparem os pelos esbranquiçados todos os dias. As mulheres, por muito machista que possa parecer, estão condicionadas às quatro paredes das casas, que são todas iguais, e mais especificamente à cozinha, onde preparam os manjares para os estafados maridos que almoçam ao 12h00 e às 17h00 chegam, impreterivelmente, a casa, onde são recebidos com um certo beijo amoroso. Elas apenas tiram o avental quando saciam toda a família, que terá no mínimo 3 filhos, e só descansam quando a casa está tão limpa como uma pérola áurea.
Os dias correm assim, automatizados, basta apenas cumprir as regras que o governo dita, ele que é o soberano de todos aqueles que respiram neste mundo: entregar-nos ao trabalho, que é vitalício e não se muda, arranjarmos uma mulher, comprar uma casa igual a todas as outras, iguais entre si, criar uns fedelhos que nós fizemos nascer, fazer umas férias num parque de campismo, onde sorrimos para expressarmos a nossa felicidade, reformarmo-nos, discutir com a mulher sobre o facto de ela ter trocado o sítio habitual do copo com água, onde descansa a placa, ver maratonas de televisão, pentear os poucos cabelos brancos, assobiar à rapariga nova que vemos passar do outro lado da janela, adoecer devido à exaustão da nossa vida e à queda na banheira e, por fim, morrer. Parece simples, os homens e as mulheres tinham apenas de cumprir este plano e o paraíso estava-lhes destinado, sem quaisquer reclamações por parte do Estado. Mas eis senão quando, e reparem que todas as histórias têm de fazer esta viragem para contrariar a introdução, um homem, digamos com uns 30 anos, que tinha um destino traçado como industrial, disse que não a tudo. Mas a tudo o quê? Disse não à cara limpa e ao bigode encerado e deixou crescer uma barba negra, pontiaguda, como aquela que os faraós imponentes mostram sem medo, negou às três pretendentes belíssimas que o cobiçavam, que a cobiça neste país faz-se ao contrário, e foi viver com um homem, era homossexual não por ter o espírito da contradição, mas porque amava homens, nunca andou de pasta preta nem de chapéu de coco e abominava a rotina, era um espírito livre que sorria, e que escândalo provocava ao mostrar os dentes níveos, à vida e nunca se cansou de ser ele mesmo, por vezes até mendigava. Acreditava na igualdade dos sexos, na escolha do trabalho que queremos, na diversidade, no amor, no sexo, na arte e acreditava na Anarquia, que o governo empatava a vida. Por vezes anunciava as suas ideias nas ruas, perante olhares escandalizados e discípulos.
Num daqueles dias que a história muda nas estórias, o governo, o já tão falado comité divino que determina as regras da vida das pessoas, reuniu-se urgentemente. Jacob, o velho de cabelos brancos e bigode longo e encerado, de fato clássico, com um emblema triangular na lapela do casaco perfeitamente engomado, atrasara-se para o comício e corria agora o último lance de escada que o separava da porta de vidro. Quando entrou, os presentes levantaram-se, cumprimentaram-no com as honras necessárias, obrigatórias no cumprimentar de um presidente de tão ilustre Governo, deram-lhe espaço para ele passar e esperaram que o protagonista se sentasse na cadeira dourada, a única.
- Sabem porque estamos aqui.

Sabiam de facto. Tinham-se levantado os doze às 4h00 da manhã, alarmados com o telefonema do Presidente. Estavam naquela mesa de vidro retangular, como tantos outros tinham estado nos séculos anteriores, para escolher aqueles que deviam ser sacrificados em prol do bem-estar da civilização. Não uma oferenda aos deuses, mas uma oferenda à população, um espetáculo de horrores a que todos assistiam, pálidos e serenos, vendo o fogo azul consumir os que já estavam predestinados, esses que nasciam para morrer, "A bem do Mundo", apregoavam os cartazes que anunciavam tal espetáculo.
Porém este ano a coisa seria diferente, não seriam mortos 4 homens, como era o habitual, seria morto um, Miguel Farali, filho de um industrial e de uma dona de casa, perverso, amante de coisas impróprias, nojento, sádico, contranatura, ele que ofendia os costumes cada vez que respirava e apregoava um mundo diferente do que estava perante os olhos da gente, ele que defendia que o sagrado governo, o comité do olimpo, fosse destituído!

"A vida deste homem é um ultraje para a sociedade, será o melhor presente que a população pode querer", pensavam sorridentes os 13 na mesa. Discutiram como seria a execução, deliberaram sobre o facto de se poder tornar mais penosa para o libertino, mas tiveram misericórdia, eram pessoas benevolentes. Definida a vítima, tratado o processo legal que antecedia à prisão da mesma, arrumaram as suas medíocres pastinhas pretas, abraçaram-se como se se conhecessem à cerca de 2000 anos e abandonaram o complexo vítreo, deixando-o despovoado e triste.
Era dia 24 de Dezembro, Dia da Vida, como lhe chamava, ironicamente, Jacob, Miguel percorria o habitual caminho dos condenados, com as grilhetas a estalarem nas pedras do caminho, ouvia insultos, alguns choros até, e continuava a sorrir perante o abismo, não daria nunca a parte fraca perante aqueles ditadores, energúmenos, eles que não compreendiam a Natureza Humana nem nunca tinham sido humanos nas suas vidas de carrascos.

Chegou à fogueira azul quando o relógio do Ministério Humanitário tocou as doze badaladas, era dia 25 agora, momento do entretenimento começar. Foi empurrado por dois homens de fato vermelho e caiu na confusão do fogo e da palha que o alimentava. Ao príncipio, doeu-lhe entrar naquele berço flamejante mas depois, sabendo que a salvação não viria, deixou o fogo de lhe purgar o corpo e a alma, tudo era uma massa azul, as pessoas, o tempo, o espaço, o Universo. Contrariando as regras do Mundo, mais uma vez, falou:
- Calam-me como calam a humanidade.- gritou- Tudo se resume a este vosso projeto a que vocês chamam de vida e que nem toca nessa meta sagrada, desafio até a todos aqueles que me ouvem a dizerem Eu Amo-te à vossa esposa. Acredito que nem um terá a força de fazer isso, porque são todos forçados a gostarem de uma mulher. Eu sempre amei homens, confesso, mas amei-os!
- Cala-te- gritou com a cara rubra Jacob

-Agora Jacob? Agora não, agora que eu exponho o vosso consellhozinho de Deuses, seus sacripantas que não vivem nem deixam viver, que não ouvem musica, que acham que o mundo é monocromático! Enganam-se os presentes, o Mundo é belo e nós também o somos, temos a capacidade de amar e de ver a beleza, mas não as usamos devido a sacanas como estes!
O fogo acompanhava a fúria de Jacob que quase rogava às chamas que levassem Farali. Por fim, ele expirou e desapareceu no ar, como um sonho. Jacob riu-se no fim de tudo e mandou à multidão que dispersasse. Os que tinham visto aquilo, não cumpriram a regra e rodearam Jacob. Ele gritou pela sensatez mas quando tentou mais uma vez foi morto.

E foi assim que o Mundo conheceu o primeiro homem, aquele que despoletou o Big Bang, metaforica e literalmente.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Desabafo do Jejum

Não quero sair da cama. Talvez nunca na minha vida o deveria ter feito. Em situação alguma o mundo precisou de mim, apenas eu é que preciso dele, infelizmente. Aborrece-me ir enfrentar o mundo problemático lá de fora, ter de ultrapassar a janela, cravar uns bocados de vidro na carne (que o humano não é mal educado e necessita de sofrer e guardar a lágrima), olhar as pessoas e não me limitar à imagem, ter de penetrá-las para lhes sentir o verdadeiro gosto. Que merda, que merda, QUE MERDA!
Chega de risinhos comodistas, de falares sacanas, da musica que não o é, dos que são de esquerda, dos que são de direita, dos que são de meio, dos que são anárquicos, dos que vêm o futuro fatalistas, dos que aguentam isto calados (e se falarem é mentira), basta da raça humana que nada de bom tem feito, que nada de bonito tem criado.
Basta do mundo e dos seus truques de algibeira, da sua necessidade consequente de nos matar e de nunca nos dizer a verdade, e de mim e das minhas contradições e das minhas atitudes absurdas, eu que falo mal de ti, sim de ti que me vês e não fique mal que toda a gente fala mal uns dos outros, só que não se admite que é feio, que preciso do teu abraço e tu mo negas, eu que já tentei fazer-te feliz mas tu quiseste ir ao fundo!
Vou sair da cama, sou obrigado pelo meu progenitor, vou ter de ir comer, de ir tomar banho, de enfrentar a sociedade que não morre sem mim. Vou ter de ir ao mundo. Até já.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Rio de Sangue

Água. A mulher que saltava para o rio gelado sabia o que a esperava e mesmo assim saltou, sem dor, com um sorriso tóxico, fantasmagórico, que iluminava a névoa, manto esbranquiçado que cobria o que lhe aparecesse. Matilde olhou a Lua enquanto rodopiava, pensou no que poderia ter acontecido de diferente se não tivesse conhecido Santiago nem Rita. Tudo teria tomado o rumo habitual das coisas, ela continuaria à procura de quem lhe inspirasse os quadros, tomaria a carne de alguns dos seus modelos, para "lhes tirar a essência da arte", apontaria o seu numero de telefone, guardaria o nome com um asterisco, que ela utilizava para marcar aqueles e aquelas com quem já tinha visto " a Lua" e que gostara, e com um ponto de exclamação aqueles que a dose não seria para repetir. Tudo em prole da arte, essa que exige aos inspirados todas as almas e todos os sopros de beleza dos meros objetos do mundo que somos. Mas o Mundo não volta atrás (pior até se o fizesse) e a visão do inferno líquido, frio, mantém-se real perante os olhos negros da suicida aérea, ela que pegara num estilhaço de espelho e rasgara os pulsos alvos, agora poços do inesgotável sangue, poços da morte (essa que apresenta sempre uma pontualidade Britânica).
O corpo embateu por fim na negrura do rio, suspenso no interior do purgatório, entre a vida e a morte. Os olhos balouçavam tristes e tentavam alcançar a superfície, a vida, mas a escolha tinha sido feita, os dados lançados sobre a divinal mesa e as cartas atiradas ao ar. Gritou com uma força minuscula pelos nomes daqueles que a tinham levado àquele rio, (que dizem os velhos de quem ninguém foge) fechou os olhos, respirou a única coisa que a rodeava e... Fim. Nem a vida lhe passara aos olhos, nem as imagens dos pais a ensinarem-na a pintar, nem o primeiro e único homem que amou, nem as noites de luxúria, nem aquela noite que lhe encaminhou o fado, NADA, os olhos apenas se trancaram, a boca escancarou-se e os braços acompanharam o movimento do corpo nu, sem alma.
Na avenida da cidade, jazia um homem e uma mulher numa poça vermelha.Os que primeiro chegaram disseram que se tratava do Dr. Santiago e da Rita, a sedutora pianista da terra. Os velhos diziam que tinha sido uma artista, uma daquelas pintoras que pintam formas imprecisas mas são consideradas Deusas. Esta, andava "engalfinhada" com os dois cadaveres, separadamente, "mas o Sr. Dr. era por quem ela tudo faria, por isso é que ao apanhá-los aos dois em assuntos de lençol os atirou pela janela a baixo".
Já se sabe que os velhos inventam, esmiuçam os factos que ouviram da boca maldicente, porém desta vez façamos o favor de acreditar na sua sábia palavra...
Matilde esborratou o rímel, os cabelos fulvos começavam a ficar flamejantes perante a sua fúria, maldita a hora em que aqueles dois se deitaram juntos, chorou e gritou ate os pulmões arderem de cansaço, chegara a hora de assumir o papel de destino. Levantou-se na ira descontrolada da traição e ergueu bem alto o punhal, ah símbolo tão antigo da justiça, queria vê-los, prazeirentos, a consumirem-se nus no leito do apartamento, onde tantas vezes ela tinha sido consumida por Santiago, a afagarem as faces um do outro contraidas de desejo, sedentas de luxúria e glorificação.
E quanto mais pensava nisto, mais via claro o seu destino curto, de horas, e mais corria, qual louca, para o ninho dos amantes, "esse pombal repugnante", e chorava de raiva, de um pingo de amor pelos dois que tinha sido destruído, um pingo da sua enocência que lhe tinha sido roubado.
Enfiou a chave na ranhura e abriu a porta velha. Rangia. Subiu as escadas quatro a quatro, chegou ao andar, empurrou de leve a porta, que estava ligeiramente encostada e entrou naquele antro de devassidão. Percorreu o longo corredor dourado, coberto pelas suas telas, e chegou ao quarto.
Quando recuperou do primeiro choque que a abateu observou a cena: Rita rasgara a garganta de Santiago e estava cheia daquele encarnado vivo. Dançava sobre a luz da lua, entoava cânticos pagãos e ria-se maniacamente enquanto do outro lado, Matilde tentava digerir as malhas do destino.
"Oh Matilde, eu sempre pensei que soubesses que eu tinha uma atração pela morte" e rodopiava, rápida e efusiva, como se de um palhaço macabro se tratasse. Matilde não se conteve e jogou-se a ela, tentou esfaqueá-la, mas acabou por perceber que ela já o tinha feito a si mesma e que, agora, jazia no seu colo, sorridente, de dentes a mostra.
Não suportou aquela cena de horror, o amor derrotado e esmigalhado em pedaços de carne humana. Quanta dor sofria, quanto o espanto perante a cena e perante Santiago morto, que assim o estava para obdecer ao fetiche de Rita, a demente pianista.
Matilde viu apenas o caimnho do rio, jogou os dois corpos pela janela e quando se ouvio o embate das ossadas no passeio já ela caminhava na penumbra em direção ao rio íman e ao rodopio do fim da vida.
Agora só os velhos podem contar a história de Matilde. E ainda há até quem acredite nas suas palavras.

domingo, 26 de agosto de 2012

A eterna questão

Se leram, ouviram, alguma história de amor, se já deixaram cair os olhos, perguiçosos e sonolentos, numa novela parva, até se já sentiram obrigação, por parte própria ou pelo conjugue, de ir assistir a uma comédia romântica com o Hugh Grant, entenderão as próximas perguntas ou como  questões filosóficas ,ou como algo inutil e sem resposta. O que é o amor? É aquilo da novela entre o Osvaldo e a Lucinette? É retratável ao menos?
Nunca havemos de conhecer o amor. Nunca! É igual ao eu dizer que Deus existe, que é um velho barbudo que se debruça pelas nuvens étéreas e cospe raios, quando nos portamos mal. Perceberam? Se não, passo a explicar.É que nós mesmo antes de pensarmos nesse assunto, já lhe temos a ideia formada, as testemunhas ouvidas, as histórias contadas e os casos de sucesso documentados, tomando o amor como um caso de tribunal e vivendo-o como rotineiro, merecido, algo sem malagueta e pelo qual todo o Humano deve passar. Problema é que,o amor, jamais será garantido, rotineiro e comum, jamais se tornará na mancha cor-de-rosa em que acreditamos...Sempre foi sangrento, emergindo de corações imperfeitos, feios, com artérias e veias enroladas e não de um coração simples, bonitinho e perfeito em toda a sua construção e simetria, rosado e pintado a lápis de cera!
Ele é tão mais do que nos mostram: tão irretratável, tão inexprimível, tão imperfeito, que nos relembra a mortalidade, tão divino, que nos faz acreditar num arquitecto maior que a nossa força. Mesmo para aqueles que afirmam não o terem sentido durante a sua caminhada, ele revela-se o objectivo primário da vida, a "razão" entre as razões, o ouro alquímico que transforma os corações de chumbo, o Nirvana que não pede Budismo!
Depois de lerem estes parágrafos, há que ir directo aos cornos do texto e entender que nada compreenderam sobre o que é o amor.E  quem diz do alto da sua importância que eu o compreendo, que eu o senti? E quem o compreende, Hum? Quem é o parvo que diz que o amor são borboletas na barriga, com um encantamento geral,um olhar apaixonado? Que sabe ele? Pelos vistos, não sabe que o amor pode não se expressar e os sintomas serem apenas o que eles são, sem metáforas:  uma confusão, uma cólica intestinal, o encanto da aparência e do bom gosto. Assim não há regras no amor, não existem exemplos a seguir nem leis para cumprir, não existem padrões comportamentais que nos levem a acreditar que uma pessoa padece dele, quando pode ser apenas "falso alarme" ou distúrbio mental.
Voltamos assim ao inicio, ninguém consegue definir o amor, dizer que o sente, dizer se é um mito ou se é certamente real.Todos o procuramos (é certo), mas será que algum dia o encontramos, ou seremos arqueólogos fracassados numa busca demente? Quem sabe? Fica a eterna questão.

P.s.: Desculpem se o texto não presta, estava enferrujado.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Filosofia Barata


 Não que vos ajude, ou que vos enriqueça o espírito de maneira significativa, mas tenho uma confissão a fazer-vos (vós, vozes do além e possiveis padres de uma igreja qualquer): Odeio o Verão. Dito isto, as não mais que 5 pessoas que vieram ter ao meu blogue,por acidente,abandonaram já a ideia de me prestar qualquer atenção. Parece que os oiço, o seu pensamento a vociferar-lhes enraivecido «Quem é o atrasado mental que não gosta do Verão?», «Como é que ele não gosta de sol, de praia?», e claro existem sempre aqueles  2 estrangeiros que ainda vão demorar 30 minutos a descodificar o texto traduzido pelo google tradutor, e os que estavam a ver um blogue sobre lingerie e carregaram, sem querer, no botão de blogue seguinte, apressando-se a retroceder a ação.
Quero ser breve na resposta , sei que se  tornará impossível já que sou de natureza um divagador incurável e desmedido, farei um esforço gigante e começarei a desenrolar da mais bela desculpa que arranjei. É que eu não desprezo as noites quentes, os serões prolongados nem os dias temperados com Sol e Mar, desprezo sim a presença nula de ação e a consequência chata da introspeção. Enormissimas e dignas palavras que só servem para dizer que eu odeio fazer eventários da minha alma e escrutinar todo o meu ser, chegando a conclusões, no mínimo, estúpidas e parvas que partilharei (qual fiel cão).
Percebi, nessas minhas reflexões, que além de divagador nas horas vagas,sou um contradicto depressivo, vagamente  egoísta, que procura toda as atenções disponíveis.
Contradicto. Descubro-me assim, uma teia de contradições que se tornam novelos, depois tapetes e por fim uma alma labírintica que se encontra rasgada pelo gigante ego. Sim, porque os contradictos são egocêntricos, mesmo que pouco, eles pensam que o "não é bem assim" é a demonstração suprema da inteligência e que trocar as voltas às conversas, é extremamente interessante. Mas não sou só contradicto porque quero, sou porque eu sou 1001 pessoas aprisionadas num corpo, um Pessoa menos genial e sem bigode!
Nunca pensem que ser um "little" Pessoa (em matéria mental) é fácil. Quem me salva dos meus amigos que querem conselhos para derrubar outros meus amigos, quando eu  sou de ambos os flancos? Já estão a perceber? Faço sempre jogo duplo, inconsequentemente, faço quase o papel de um espião anglo-germano que apoia Hittler e Churchill na 2ª Guerra!
Depressivo e egoísta, porque é necessário.Não me venham com merdas, a dizer que nem todos temos estes defeitos,tretas! Toda a humanidade tem a necessidade de ser egoísta para se reconhecer como humano e controlador do seu próprio destino, mesmo que isso seja mentira, nós precisamos. Além disso a humanidade necessita da depressão, de pôr uma mão na cabeça, revolver todo o mal e de se afundar em si mesmo, percebendo a verdadeira essência da morte e de nós todos.
Depois de todo a minha investigação, revelação. Eu sou humano, eu não tenho que inspirar perfeição nem alcançá-la, aliás, a humanidade foi criada para ser defeituosa e semideusa, aspirando sempre a ser Divina, e caíndo sempre na mesma armadilha: a vontade de conhecer mais. É o não nos contertarmos com a simplicidade e a verdade, que nos leva a querer a mentira, a possível descoberta de conspiração, uma "verdade" que nos satisfaz.Verdade é também, que a descoberta é o modo de encontrá-la, mas hoje ela já não vende jornais, passou a ser desinteressante!
E é assim que acabo de escrever, não entenderam muito pois não? Não faz mal,eu também não...

domingo, 1 de julho de 2012

Caravela na tormenta


Há uma caravela de pesadelos,
tão negra como a minha tristeza
e bordada de luz como a tua alma,
que roda no desespero, me chama.
Se inflama e parte para o abismo,
Procurando o meu Sol!

Sei de um marinheiro
Que do mundo inteiro, te escolheu.
Cantou minhas trovas loucas e velhas
Bebeu o espírito do teu sangue
E mo deu a mim, sem remorso,
Prendendo o teu amor ao meu.

Jazia já teu corpo, meu amor
Quando do leme do meu ardor,
Do cimo do mar da minha dor
Roguei aos céus, em oração:

"Era tão bom, gaivota
Que antes de partires, com a minha saudade,
com minha dor esmagada., me levasses
Sem perguntas, onde ela repousa.
Esse repouso tão sagrado como o tempo
Essa cama de sonho, onde eu me quis deitar!
Triste Fado, tão grande o pesar
De não mais te ver, pela minha caravela passar."

domingo, 17 de junho de 2012

Triste cena numa Cidade Escura

Naquela noite,nada existia no Céu e nada iria existir. Parecia até que o próprio Mundo ainda não tinha sido inventado, e nem o próprio Deus tinha tido pachorra para explodir o Universo e criar vida. Havia, assim,
 apenas o silêncio medonho, espalhado por igual pelas ruas da cidade adormecida, e a solidão de corpos quase sem vida de prostitutas (encostadas nas esquinas estreitas) que esperavam os endinheirados magnatas,
É no meio desse negrume, cerrado como se a morte já tivesse levado todos, e dessa má fama, que se observa um brilhar, quase único, de duas pupilas dilatadas que se tentam camuflar no vazio. Para elas ,e  para o seu portador, todo aquele ambiente e toda aquela escuridão, provocava uma agonia e um medo que mais ninguém poderia compreender ou sentir. Não era ,certamente, temor do escuro mas , talvez, daquele mal que a tantos persegue :  o Amor!
Damião ("Lobo" de alcunha), assim se chamava o protagonista e em certa medida o fio condutor de toda a trama, apresentava uma figura curiosamente parecida com a de um velho marinheiro mas que, pelos contornos da face,  se advinhava um rapaz que rondava a casa dos 20, com cabelo até aos ombros e braços fortes.  Para além disso, a única coisa que o distinguia de um velho Lobo do Mar era a impaciência, que é coisa que o coração de um jovem conhece como se fosse uma parte do seu próprio corpo e os velhos estranham e repelem. Damião, por sua vez, estranhava ,sim, a paciência e desde que conhecera Leonor deixara de a sentir, em toda a sua totalidade.
Como não a apresentei? Leonor era o fogo que o  fazia arder , era todo o seu ar, todo o seu veneno, toda a razão de ele andar escondido. Ora...Coisas de Amantes, já se sabe! Damião era um triste fora-da-lei que se aninhava todas as noites no meio do frio e Leonor era ,a filha do Major, que ansiava voar para além do limite vital. Conheceram-se quando ,de encontrão, tombaram na calçada da baixa e ,desde esse atentado,  voavam ,em auras de desejos e de paixão ardente, pelo Oiro das Luas e pelo perfume das Madrugadas, fundindo as suas "caixas de batimentos" num só corpo e dando as mãos por todas as ruas do desespero. Era a tarde dos amantes, porque a noite (essa noite) iria marcar, a sangue, todo o seu futuro!

Meia Noite. As badaladas fantasmagóricas dos sinos da Catedral ecoavam nas estradas desérticas e acordaram ,do sonho vivo, o amante. Mergulhara , há pouco, num transe melancólico e sombrio :  começara a deixar escorrer pela face ,suja, pequenas gotas transparentes que lhe molhavam o curto bigode e ,exponencialmente, ia largando um gemido de dor ,como se o mal da alma ultrapassasse qualquer maleita do invólucro humano! Era por ela que o "Lobo" uivava. Por ela , por ele e pela possibilidade remota de não mais se verem. De quanta tristeza se enchiam os seus orgãos, e de quanta esperança se enchia a sua cabeça, que parecia levitar quando este se encorvava, direito ao abismo.
Todo o receio do fim começara há pouco, quando o capitão da infantaria, a que a mão de Leonor estava prometida, voltou, são e salvo, da guerra. Damião pensava ,ao longo dos dias, "Era tão melhor que esse coitado morresse em combate e nos deixasse em paz!", mas continuava a sofrer sem se expressar, poupando-se em gestos e exilando-se na inacção pensando, constantemente, naquela a quem o seu coração se entregara por completo.
Não havia solução. Não existia saída do labirínto e matar o Capitão era uma coisa impensável, já que o amante era um "marginal" e tinha sangue oxidado no cartório, e pedir à amada que o fizesse era egoísmo elevado ao extremo. Que o jogo, infelizmente, seguisse o curso que as peças maiores quisessem! Ou será que...
O "Lobo" magicara a única coisa que lhe tinha falhado e conseguira convencer uma amiga de Leonor, a transmitir-lhe o plano : uma fuga para o Brasil! Seria simples, saíriam a meio da noite quando o Cargueiro "Cronos" parasse no porto citadino, e entrariam pela porta da tripulação que ,segundo sabia Damião, era uma entrada sem segurança e sempre vazia. "Fácil demais", pensou no momento, seria uma obra que nem requereria mais de 20 minutos e nem sequer seria necessário usar das suas "habilidades". Sentiu um sabor amargo ,na boca, ele tereria querido inventar um plano mais minucioso, onde ele mostrasse todo o seu conhecimento criminoso e toda a sua perícia na arte de enganar, mas ficou feliz por ter arranjado solução e por ,Leonor, rapidamente ter aceitado e ter combinado a fuga para daqui a dois dias. Agora, esperar seria a solução mais prudente...

Meia Noite e Meia. O som de uma única badalada ,estremeceu-lhe de novo o corpo cansado e, atingiu as entranhas do Mundo, dolorosamente, diluindo-se na Treva e chamando, de novo, o silêncio. Depois do transe veio o desespero. Perguntava-se porque é que ela não aparecia, porque não havia um único sinal seu e, respondia-se com pensamentos devastadores. Que havia ele de pensar? Seria incrédulo? Seria uma vítima? Ou seria ele, também, um criminoso na arte de Amar? Tanta coisa lhe passava em rodapé pela mente, cada frase, cada conjectura, lhe feria ainda mais o seu coração, e ele só queria um gesto, um ponto de luz ,naquele túnel sombrio e gelado, pior que o inferno; com isso morreria ou ir-se-ia embora feliz.
Começou a andar, destroçado e farto de esperar por um "D.Sebastião de saias" que não viria, quando ouviu uma voz trémula  chorosa e alta que chamava por si:
- Damião!
Era ela. Que contentamento desconcertante o invadiu, por fim.Correu para ela, seguindo a voz, e encontrou-a ,ofegante e chorosa, encostada a um barril.
Trocaram olhares ternos e desconfiados.Esboçaram um sorriso que lhes aconchegou o peito e agarraram-se, eclipsando-se num beijo apaixonado, naquele cenário terrível. Riram-se com os olhos e, por fim, deram as mãos.  Depois de minutos sem fôlego, ela falou:
- Desculpa! Eu sei que tinhamos combinado às 22h00, mas ...
- Não preciso de desculpas! Vamos, o cargueiro só parte à 1h!
- Não estás a perceber! O meu pai impediu-me de sair e disse que sabia que nós íamos fugir! Ele conheçe-te Damião, ele sabe do teu historial e chamou uns amigos do Capitão para nos perseguirem e te matarem. Eles vão cercar o porto, em pouco tempo.
A má notícia explodiu e os seus estilhaços feriram todo o intelecto do génio do crime. Ele tinha-se esquecido, da influência animalesca do Capitão e, das paredes velhas da cidade, que eram, ainda, construídas sobre o ideal da cusquisse, e do dinheiro que ela trazia. Para onde, agora, haviam eles de fugir? Mais perguntas invadiram-lhe o pensamento e todas elas, resultavam, num tumulto interior. Só lhe poderia perguntar uma coisa:
- E como é que tu escapas-te?
- O meu pai esperou por eles e foi com a "matilha". Eu fiquei sozinha e corri o mais que pude até aqui.Sei, que pensas, que estamos encurralados, mas existe uma solução!
- Qual ?- perguntou ,quase desapontado, por não lhe ter passado essa escapatória pela cabeça.
- Existe um porto, pouco conhecido, do lado este da cidade. O meu pai costuma pescar naquela zona, tem lá um bote atracado.
O Major a pescar e ainda por cima, num modesto bote? A ideia pareceu-lhe extremamente peculiar e divertida,  tinha até vontade de gargalhar e, só não o fez, porque não seria bem interpretado e aquela escura noite, tinha tudo menos graça. Arrumou ,assim, o humor numa gaveta, trancou-a, e concordou com a ideia dela. Apertou-lhe a mão e, ambos correram com a força que o corpo lhes tinha reservado para aquele momento, parecendo até que o tempo ficara mais lento e eles o tinham ultrapassado num truque de magia. Ah! Era tão poderoso o elo que os unia,  tão poderoso o seu magnetismo que, em nenhum lado da viagem, se largaram e, só quando chegaram ao destino, recuperaram o ar que tinha ficado ,como rasto, pelo caminho.
Desamarraram-se um do outro. Ele desatou o complicado nó que unia, o barco àquele monte de madeira velho e ,pegando na mão da amada, transportou-a para dentro, agarrando os remos e começando a fugir daquele decadente porto romano, daquela vida tenebrosa.
A meio do rio parou, para contemplar as estrelas e a Lua, que agora começavam a despontar na estrada do Céu. Olhou para Leonor e sentiu a paz, a paz que nunca na vida tinha sentido.Era ela que levaria ao altar,
e seria ela que lhe acalmaria, o turbilhão de tormentos e pecados que o vinham visitar á noite, no tempo dos pesadelos. Não deixaria que ninguém os separasse e iria venerá-la como a Deusa mediterrânica que era : cabelos longos e castanhos sempre perfeitamente penteados, lábios carnudos e vermelhos, olhos verdes, pele bronzeada e um geito de rainha! Enquanto pensava nisso, jogou a mão ao bolso para tirar o anel, que tinha roubado, para lhe oferecer, mas nada sentiu, nem sequer o seu punhal de estimação . "Devo tê-los perdido", fez uma cara de desilusão quando pensou nisto mas, rapidamente, se cansou da tristeza e pegou nos remos, ansioso por sair dos limites daquele mundo malvado.
- Nunca me falaste do teu passado. Tu conheces tudo de mim e eu nada conheço de ti! Porque nunca mo contaste?
Sempre temeu esta pergunta, e quando ela a fez , ele sentiu o chão a cair-lhe, e um poço de fogo a abrir-se debaixo dos seus pés. Nunca lhe falara do seu passado, era um facto, mas porque ele a queria proteger do passaporte para a desgraça, que ele o era. Tentou tapar a pergunta e matá-la naquele instante:
- É pouco interessante e não tem graça. Tu sabes o essencial e sabes que eu te amo, não será isso, tudo aquilo que devemos saber um do outro, que nos amamos?
- Se não é importante, porque é que te escondes sempre que um polícia passa?
Escorreu-lhe uma gota de suor pela testa que, automáticamente, aniquilou com a mão. Ele não lhe podia contar, não agora, que estavam prestes a escapar.Talvez mais tarde, quando assentassem num sítio seguro, ele explodisse e lhe dissesse, a chorar, tudo aquilo que tinha feito, à 10 anos atrás, quando ainda era um jovem de 17 anos. Mas agora? Ele não teria coragem!
- Então?
Ignorou-a. Ela persistia no fim do Conto de Fadas, e, sem saber, na caminhada lenta para um conto terrorífico de Alan Poe.Que havia de fazer? Seria melhor conservar o silêncio como aliado e, fingir que não  a ouvia.
Perdido nos seus pensamentos e ocupado a não se comprometer, Damião desconhecia por completo que Leonor estava mesmo atrás de si, só o reparando quando ela lhe pôs a mão direita sobre o seu ombro esquerdo, sussurando, tenebrosamente, umas palavras feridas e tristes:
- Eu sei o que tu fizeste!
Poderia ser? Poderia ela ter descoberto o seu pesadelo? Tentou-se virar, para perceber o que é que ela sabia, quando sentiu as suas costas rasgarem-se ,e serem trespassadas por uma lâmina fina e afiada.Esbugalhou os olhos, não porque a facada lhe tivesse doído, mas sim porque se sentia traído! Perguntou-lhe:
- Porquê?- gritou enquanto uma lágrima caía entre soluços.
- Não te lembras de mim, há 10 anos atrás? Talvez te lembres de uma menina de 8 anos que vinha do Bosque com a mãe, num coche, quando , de repente, saltou uma trupe de saltimbancos ,dos arbustos junto à estrada, e mataram os cavalos para que ninguém pudesse escapar dali. Abriram-nos as portas, apontaram-nos as armas às cabeças e mataram o cocheiro. Exigiram o nosso dinheiro mas minha mãe tinha-o gasto na Cidade e nada lhe tinha sobrado. Implorou de joelhos que nos deixassem viver, mas a fúria tomou o chefe do grupo e mandou o mais novo , pegar no revolver, e matá-la. Ele fê-lo sem dó nem piedade, em frente a mim e deixou-me, como os restantes, sozinha no meio do Bosque com o vestido salpicado de sangue e de lágrimas.Só fui encontrada na semana seguinte.
Ele não podia acreditar.Ela era a menina que ele deixara frente à cara da mãe, quando premiu o gatilho e lhe acertou com uma bala ardente no pescoço, sem dó e coagido com a opção da morte. Ela não sabia isso, mas a frieza do golpe marcara-lhe toda a vida e fechara-lhe a porta da felicidade. Que monstro fora, que monstro era!
- Desculpa-me!- sussurou agarrando o peito ensanguento, desiludido com a sua ingenuidade e com o seu amor traído. Merecia morrer assim, pensava ele, com a única coisa que o poderia ferir naquele mundo de ilusão.
Viu o Mundo a caír e a desvanecer-se. Ela tentou segurá-lo mas ele caiu na água e afundou-se lentamente rumo ao esquecimento, sem saber que Leonor o amára e por isso tinha escolhido matá-lo impossibilitando o Capitão e o Major de o fazerem. Damião era o ladrão da sua infância, mas o coração, escolhera-o e ,Leonor, martirizara-se por isso mesmo, antes de lhe ter cravado aquela lâmina obscura no corpo.
Chorou, gritou e, de tanta tristeza, secaram as suas lágrimas. Quis sair dali, levou o barco a terra e desapareceu com o vendaval que se levantou.
Nada mais se soube dela (dizem que se suícidou), nem do Capitão, nem do Major.No mapa desapareceu aquela maldita cidade, e nunca mais se ouviram falar, das suas horriveis histórias de amor.

domingo, 10 de junho de 2012

Tocando no "Tom" da Bossa

Percorria eu os caminhos labirínticos dos meus pensamentos, perto do desespero do Vazio, quase a ceder ao cansaço, quando me lembrei d´Ele e dos seus dedilhares mágicos nas teclas brancas e negras de um Piano de Cauda. Tentei rapidamente pegar na viola e tentar tocar algo seu, como se isso o fizesse renascer. Movi os dedos com cuidado (fazendo com que assumissem posições acrobáticas) ,produzi sons animalescos, alguns mesmo fabulosos, mas nenhum destes esforços (mesmo que gigantescos para mim) O fizeram acordar das entranhas de Copacabana. Desanimei.Porque haveria Ele, que há muito tinha mergulhado nas águas do Tempo, de ouvir um sopro silencioso  a sussurrar lentamente as palavras que saiam extraordináriamente projectadas pelo João Gilberto, pelo Buarque ou pela Elis (que lhe antecedeu no mergulho)? Não obtive resposta e não mais tive ilusões. Que se podia fazer? Ouvi-lo, já que ele não queria ser levantado do Chão!

"  Um cantinho, um violão
   Esse amor uma canção
   Para fazer feliz a quem se ama
   Muita calma para pensar e ter tempo para sonhar
   Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor
   Que lindo! "

Esperava um "Chega de Bobagem Moleque, você não me conhece!", mas apenas captava aquele feitiço feito melodia, a ternura imensa das sílabas enroladas em Mel e disparadas em simultâneo! Seguiram-se depois de "Corcovado" toda a habitual playlist, acabando por ouvir "Desafinado".

"   Se você disser que eu desafino Amor..."

Mais reconfortado, porém com uma tristeza inconsolável, deitei-me e devolvi-me aos sonhos e aos pesadelos, ouvindo aquela Voz calma enquanto vislumbrava um Deserto no Horizonte. Encontrei um cato e um enormissimo Camaleão côr-de-fogo que se arrastava pelas areias escaldantes e expulsava a sua imensa língua verde. Espantosamente (só poderia ser um sonho) o camaleão era domado por uma força maior: por um homem de chapéu branco, de fato creme, de charuto no canto da boca e de um sorriso puramente malandro e cheio da maior das felicidades. Tentei agarrar-me à cauda do réptil mas era tarde de mais e a criatura fugira, possivelmente para outro sonho.
Vira Jobim, pela primeira e última vez e isso contentara-me e enchera-me todo o meu coração.
Afinal, a tentativa de ressuscitação não correra mal!

Monte Insignificante de Palavras a que eu Hei-de Chamar Introdução


Acho quase sempre o primeiro capítulo ,dos livros, um completo monte de chatice e de "rodas dentadas" que o escritor cria  para demontrar o seu alto poder enquanto Semi-Deus. Porém, são essenciais, porque são eles que nos guiam (fazendo-nos saltar pelo Portal do Sonho) pelos corpos, pelas almas e pelas

memórias das gentes que nós queríamos ter sido, dos homens que queríamos ter conhecido, das mulheres que queríamos ter
beijado e dos monstros que queríamos ter morto sem sombra de dúvida.
São elas as personagens, Alter egos das mentes viajadas dos "Escultores da Palavra" e fantasmas que não partem da nossa mente enquanto o caminho do Manuscrito não o quiser!
 E eu mesmo sou uma e tento agora mudar o papel dando-me a conhecer mim e a este "Manchas de Tinta" que são mais do mesmo, pois partem do mesmo apocalipse/abismo que se centra no meu Umbigo. Apenos adianto que vou prencher de Histórias e de Mundos Remotos este "Portal" , e transportar-vos ora para um Inferno de Ideias ora para um Subterrâneo de Ilusões, conforme a minha disposição para compor esse ambiente ou a vossa para ouvirem os meus gritos!


Atrevo-me  a inverter a Ordem por vocês?
Deixem estar... Atrevo-me apenas a tentar um Resultado!

And that the Game begins