domingo, 10 de junho de 2012

Tocando no "Tom" da Bossa

Percorria eu os caminhos labirínticos dos meus pensamentos, perto do desespero do Vazio, quase a ceder ao cansaço, quando me lembrei d´Ele e dos seus dedilhares mágicos nas teclas brancas e negras de um Piano de Cauda. Tentei rapidamente pegar na viola e tentar tocar algo seu, como se isso o fizesse renascer. Movi os dedos com cuidado (fazendo com que assumissem posições acrobáticas) ,produzi sons animalescos, alguns mesmo fabulosos, mas nenhum destes esforços (mesmo que gigantescos para mim) O fizeram acordar das entranhas de Copacabana. Desanimei.Porque haveria Ele, que há muito tinha mergulhado nas águas do Tempo, de ouvir um sopro silencioso  a sussurrar lentamente as palavras que saiam extraordináriamente projectadas pelo João Gilberto, pelo Buarque ou pela Elis (que lhe antecedeu no mergulho)? Não obtive resposta e não mais tive ilusões. Que se podia fazer? Ouvi-lo, já que ele não queria ser levantado do Chão!

"  Um cantinho, um violão
   Esse amor uma canção
   Para fazer feliz a quem se ama
   Muita calma para pensar e ter tempo para sonhar
   Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor
   Que lindo! "

Esperava um "Chega de Bobagem Moleque, você não me conhece!", mas apenas captava aquele feitiço feito melodia, a ternura imensa das sílabas enroladas em Mel e disparadas em simultâneo! Seguiram-se depois de "Corcovado" toda a habitual playlist, acabando por ouvir "Desafinado".

"   Se você disser que eu desafino Amor..."

Mais reconfortado, porém com uma tristeza inconsolável, deitei-me e devolvi-me aos sonhos e aos pesadelos, ouvindo aquela Voz calma enquanto vislumbrava um Deserto no Horizonte. Encontrei um cato e um enormissimo Camaleão côr-de-fogo que se arrastava pelas areias escaldantes e expulsava a sua imensa língua verde. Espantosamente (só poderia ser um sonho) o camaleão era domado por uma força maior: por um homem de chapéu branco, de fato creme, de charuto no canto da boca e de um sorriso puramente malandro e cheio da maior das felicidades. Tentei agarrar-me à cauda do réptil mas era tarde de mais e a criatura fugira, possivelmente para outro sonho.
Vira Jobim, pela primeira e última vez e isso contentara-me e enchera-me todo o meu coração.
Afinal, a tentativa de ressuscitação não correra mal!

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