domingo, 4 de maio de 2014

À mãe

Nasci contra ti, no ato de puro egoísmo em que nascem todos os seres. Fiz-me balão dentro daquele microcosmos de placenta e chuchei-te o sangue e os alimentos e a virtude. Fui o primeiro a inaugurar-te e a beber-te, ainda um animal, sem palavras comprometidas que te pudessem sarar o ardor do apoderar-me da tua vida líquida que escorria dorida mas fluída de carinho, de beijos de carne movimentada.
Nunca te poderei pagar os sonos inquietos, as danças  da ânsia e todos os olhares que choraste em segredo, os bocados de ti que vou levando dentro do meu peito como se fizesse um puzzle e te reconstruísse para eternidade das eternidades, porque te quero a vigiar-me das altas estrelas até que a minha perceção de mim se esbata na terra.
Dizer-te isto é não ter feito introdução de nada e ter-me esquecido de todas as palavras, que se vão esbatendo quando te penso. Desculpa-me a frieza de tão curtas linhas e a fraqueza sintática de continuar a disparar sons sem que te devolva o som que mais é teu desde que o universo se abriu em mim: o sincopado estalar deste tambor a que chamamos de coração.

sábado, 12 de abril de 2014

She

No meu coração há a janela furada dos sonhos mudos
E a nau escondida da tua rejeição
Não há amor teu
Só água e mãos enterradas procurando
E as unhas em sangue da busca
Na senda do mistério dos teus lábios
Oh criatura que não amas
Mas pedes a minha vida
A minha sombra
A casa

Homens esgravatam em penhascos a tua imagem
Cobrem os braços de cofres de arame farpado
E estão nus, à mercê de quantos leões pôde a terra parir
Só para puder respirar a tua face de sal, de mármore
O sorriso que não desce e fica
Carvão fulgurante riscando os céus
Morte...Precipício em todas as línguas do mundo... de todos nós

A tua chamada embate em mim como um rugido
Ergo-me como um soldado que se despede
E vou rumo ao íman carnívoro que canta

Ao amor despedaçado que grita
                                               esperneia
                                                      trucida
                           como uma sereia

sexta-feira, 21 de março de 2014

Regressos

Quantas vezes me enganaste, tempo
E só o soube quando um boi alado sobre mim desceu
Escancarando um sonho
E repetiu, à fria luz da irrealidade, que eu não existia

Fiquei quedo, e numa queda me lançaram na dúvida de viver
Doeram-me repetidamente as costelas e parecia que era,
Mas quem? Quem?
Da última vez que mergulhei no gume do espelho era adolescente
Agora sou rugas que partem do cais da boca, como naus que rasgam um império estúpido

"Ri-te, pá"
Soube sorrir um dia
Mas a cabeça arde e o tempo, sacana, depressa
3 horas, 4 horas, 5 horas, 6 horas, Meia noite
Envelheço ao tique-taque de um relógio que nasceu galo
Tropeço na lassidão e dou por mim sem casa, a flutuar
Há gelo no meu coração

Se pudesse, desexistia e voltava a ser ventre,
O cálido colo onde se prova o golo do mundo
E não precisava de escrever
                                              bastava o pontapé para magoar
                                              a unhada a ferver o umbigo

Ser menino? Não quero
Passo infância a poetas que a saúdam à distância
Que eu, nesta incerteza de morrer já ou agora
Não quero mais perceber
Calei este meu arfar
Só ser a alvorada de um feto
que não sabe
e mexe
não perde
e nada abstrato no odre de um Mundo
um extra mundo
A um passo, à frieza de calcar a estrada, de nascer


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Guerra dos 100 anos

A janela dá para o rio. Uma luz coada pelos lençóis amarelos acaba incidindo na rua semideserta, devorada pelo passo estugado de uma gaivota que relincha no seu querer maciço esfomeado. Procura por peixe em ondas de macadame, mas não encontra senão a realização de uma calçada impenetrável, onde verminam pastilhas elásticas caladas e pegadas fossilizadas de imigrantes. No quarto, sob o véu amarelo de flanela, dois sôfregos animais esfregam as peles cansadas e gemem de cio insatisfeito, de dor, que os sexos estão doridos das sucessivas cópulas violentas, as quais, segundo procedimento exarado e tantas vezes revisto nos anais da ciência destas atividades recreativas, são necessárias para que a brancura consolada se possa infiltrar em ambos os indivíduos.
Por isso, não obstante ao facto de os vizinhos do 4º andar esbaforirem fartos das cacetadas do catre, que se arrasta ruidosamente pelo chão, que é, afinal, o seu teto, nem ao olhar metediço de um felino que vagueia pelas telhas de zinco, paralelas ao vidro embaciado da janela que já não serve para focar o rio, mas sim aquele turbilhão de unhas afiadas, de braços que dançam, de bocas aleijadas na sua fome de gosto canibal, os dois seres, mescla difusa de dois géneros indistintos, partem nessa demanda pelo prazer egoísta, por um momento de cansaço para que possam dormir refeitos de tantas insónias de castidade.
Campainhas que rangem, televisão que adormece numa estática estridente, pequeno e irritante cãozinho que arranha a porta branca com rapidez de se evadir da cozinha de azulejos cobertos de vapor, máquina de lavar a contorcer-se num ataque epilético, canário dos vizinhos que assusta disparatadamente a menina que dorme no rés-do-chão. Todo o mundo num reboliço vertiginoso, numa pressa ansiosa para se cumprir, para que o tempo corra e ataque vorazmente as coisas e se delicie na tarefa de ir levando, membro a membro, o que efemeramente resta aqui. Num crepitar de movimentos inflamados, uma valsa nupcial enrola uma amálgama de gestos num lençol que arde; os seios pálidos diluíam-se no peito arfante oprimido, pernas lambiam-se em caminhares secretos, umbigos ligavam-se, encontrando mil cordões umbilicais garridos, dedos mastigavam as carnes com a doença da incerteza.
O dia veio com os espinhos de um cardo florido. Ela levantou-se e vestiu uma camisa que restava no chão palmado, entre os muitos mais despojos dessa guerra sanguinária. Só ali disse o seu nome, enquanto mordia um copo de vidro, de onde jorrava um líquido âmbar. Penélope.