domingo, 4 de maio de 2014

À mãe

Nasci contra ti, no ato de puro egoísmo em que nascem todos os seres. Fiz-me balão dentro daquele microcosmos de placenta e chuchei-te o sangue e os alimentos e a virtude. Fui o primeiro a inaugurar-te e a beber-te, ainda um animal, sem palavras comprometidas que te pudessem sarar o ardor do apoderar-me da tua vida líquida que escorria dorida mas fluída de carinho, de beijos de carne movimentada.
Nunca te poderei pagar os sonos inquietos, as danças  da ânsia e todos os olhares que choraste em segredo, os bocados de ti que vou levando dentro do meu peito como se fizesse um puzzle e te reconstruísse para eternidade das eternidades, porque te quero a vigiar-me das altas estrelas até que a minha perceção de mim se esbata na terra.
Dizer-te isto é não ter feito introdução de nada e ter-me esquecido de todas as palavras, que se vão esbatendo quando te penso. Desculpa-me a frieza de tão curtas linhas e a fraqueza sintática de continuar a disparar sons sem que te devolva o som que mais é teu desde que o universo se abriu em mim: o sincopado estalar deste tambor a que chamamos de coração.