segunda-feira, 11 de abril de 2016

Mãe


Minha mãe ensinou-me
a beber em goles lentos
a água do copo

Por mais venenoso que seja o deserto
Há-de sempre vir um aguadeiro estranho
Guardando a vida num odre

E eu beberei a água em calmos acessos
Para que a vida pareça ser muita
Não mastigarei com fúria as virtudes
Nem fumarei o amor em rajadas

Devagar, como se deve fazer
Sem trocar tudo pela corrida
Não há prazer em gastar os pulmões
a correr.

domingo, 22 de novembro de 2015

Verso/Inverso






Alguém que cala assim, coisa tão aguçada
Muralhas comendo com tenebrosos esforços
Obscura semente leva guardada
Roendo as saudades e engolindo remorsos

Rasgando a pele com mão infeta
Olha o caos que em seu mundo veleja
Miasma ferrenta lhe magoa qual seta
Afoga-se, sem pé, na dor benfazeja

Alguma da gente pergunta se
Mora naquela alma sarna voraz
Obrigam-no, no meio da praça ruidosa, junta, a
Responder sobre que mal é esse tão capaz

Rilhando a dentadura
Ocultando a cara dos narizes enganados
Mia à gente dura, "é
Amor quem acomete meus músculos danados".

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A.


Meus pulmões sombrosos
Respiram só as uvas verdes cortadas
que em teus olhos repousam
quais feras aladas

Em tudo quanto vejo e tateio
Entre os escarpados becos e ruas estreladas
Cantam-me esses prados
que me seguram as veias cansadas

Tropeço nas obesas letras de sangue
que os jornais enchem, às bofetadas
E desdenho dos bichos que delas bebem
que nunca se esquentaram no lume das minhas esferas guardadas

E se a memória assim me ataca
estorcendo-me a carne com azedura
É porque longe estás, notícias não tenho
E vai-se agigantando este lanho
A falta tua, que assim me fura

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sobremesa

Dos rios de vinho
bebem as estranhas zebras
com as pernas entrançadas nos restaurantes
Seus olhos brilham, charutos fagulhentos
os lábios azedos discutem as mamas da economia e da cultura

Enquanto juntam cascalho à bica
E por trinta dinheiros vendem a cidade aos Leões
Contemplam os mármores da glória
Todos os nomes altíssonantes
capazes de partir cristaleiras
Nomes de gente morta, incapaz de fugir aos néons do marketing
E a esta glória
amarga de tão polida
suja de tão moldada

Fino pêlo púbico de homens,este
que discute o fim da Era entre lagostas
e pãezinhos besuntados de caviar
Agora, é favor chamar o garçon (PSSSST, A SOBREMESA, MENINO)
E assim aparece
Em bandeja limpa
a melhor taça de arroz doce
cremoso e calado
com um fiozinho de canela
para que não se zombe da hospitalidade tão nossa

Partem a surpresa com a colher
Emerge, entre o amarelo, Portugal

domingo, 4 de maio de 2014

À mãe

Nasci contra ti, no ato de puro egoísmo em que nascem todos os seres. Fiz-me balão dentro daquele microcosmos de placenta e chuchei-te o sangue e os alimentos e a virtude. Fui o primeiro a inaugurar-te e a beber-te, ainda um animal, sem palavras comprometidas que te pudessem sarar o ardor do apoderar-me da tua vida líquida que escorria dorida mas fluída de carinho, de beijos de carne movimentada.
Nunca te poderei pagar os sonos inquietos, as danças  da ânsia e todos os olhares que choraste em segredo, os bocados de ti que vou levando dentro do meu peito como se fizesse um puzzle e te reconstruísse para eternidade das eternidades, porque te quero a vigiar-me das altas estrelas até que a minha perceção de mim se esbata na terra.
Dizer-te isto é não ter feito introdução de nada e ter-me esquecido de todas as palavras, que se vão esbatendo quando te penso. Desculpa-me a frieza de tão curtas linhas e a fraqueza sintática de continuar a disparar sons sem que te devolva o som que mais é teu desde que o universo se abriu em mim: o sincopado estalar deste tambor a que chamamos de coração.

sábado, 12 de abril de 2014

She

No meu coração há a janela furada dos sonhos mudos
E a nau escondida da tua rejeição
Não há amor teu
Só água e mãos enterradas procurando
E as unhas em sangue da busca
Na senda do mistério dos teus lábios
Oh criatura que não amas
Mas pedes a minha vida
A minha sombra
A casa

Homens esgravatam em penhascos a tua imagem
Cobrem os braços de cofres de arame farpado
E estão nus, à mercê de quantos leões pôde a terra parir
Só para puder respirar a tua face de sal, de mármore
O sorriso que não desce e fica
Carvão fulgurante riscando os céus
Morte...Precipício em todas as línguas do mundo... de todos nós

A tua chamada embate em mim como um rugido
Ergo-me como um soldado que se despede
E vou rumo ao íman carnívoro que canta

Ao amor despedaçado que grita
                                               esperneia
                                                      trucida
                           como uma sereia

sexta-feira, 21 de março de 2014

Regressos

Quantas vezes me enganaste, tempo
E só o soube quando um boi alado sobre mim desceu
Escancarando um sonho
E repetiu, à fria luz da irrealidade, que eu não existia

Fiquei quedo, e numa queda me lançaram na dúvida de viver
Doeram-me repetidamente as costelas e parecia que era,
Mas quem? Quem?
Da última vez que mergulhei no gume do espelho era adolescente
Agora sou rugas que partem do cais da boca, como naus que rasgam um império estúpido

"Ri-te, pá"
Soube sorrir um dia
Mas a cabeça arde e o tempo, sacana, depressa
3 horas, 4 horas, 5 horas, 6 horas, Meia noite
Envelheço ao tique-taque de um relógio que nasceu galo
Tropeço na lassidão e dou por mim sem casa, a flutuar
Há gelo no meu coração

Se pudesse, desexistia e voltava a ser ventre,
O cálido colo onde se prova o golo do mundo
E não precisava de escrever
                                              bastava o pontapé para magoar
                                              a unhada a ferver o umbigo

Ser menino? Não quero
Passo infância a poetas que a saúdam à distância
Que eu, nesta incerteza de morrer já ou agora
Não quero mais perceber
Calei este meu arfar
Só ser a alvorada de um feto
que não sabe
e mexe
não perde
e nada abstrato no odre de um Mundo
um extra mundo
A um passo, à frieza de calcar a estrada, de nascer