Quantas vezes me enganaste, tempo
E só o soube quando um boi alado sobre mim desceu
Escancarando um sonho
E repetiu, à fria luz da irrealidade, que eu não existia
Fiquei quedo, e numa queda me lançaram na dúvida de viver
Doeram-me repetidamente as costelas e parecia que era,
Mas quem? Quem?
Da última vez que mergulhei no gume do espelho era adolescente
Agora sou rugas que partem do cais da boca, como naus que rasgam um império estúpido
"Ri-te, pá"
Soube sorrir um dia
Mas a cabeça arde e o tempo, sacana, depressa
3 horas, 4 horas, 5 horas, 6 horas, Meia noite
Envelheço ao tique-taque de um relógio que nasceu galo
Tropeço na lassidão e dou por mim sem casa, a flutuar
Há gelo no meu coração
Se pudesse, desexistia e voltava a ser ventre,
O cálido colo onde se prova o golo do mundo
E não precisava de escrever
bastava o pontapé para magoar
a unhada a ferver o umbigo
Ser menino? Não quero
Passo infância a poetas que a saúdam à distância
Que eu, nesta incerteza de morrer já ou agora
Não quero mais perceber
Calei este meu arfar
Só ser a alvorada de um feto
que não sabe
e mexe
não perde
e nada abstrato no odre de um Mundo
um extra mundo
A um passo, à frieza de calcar a estrada, de nascer