sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Guerra dos 100 anos

A janela dá para o rio. Uma luz coada pelos lençóis amarelos acaba incidindo na rua semideserta, devorada pelo passo estugado de uma gaivota que relincha no seu querer maciço esfomeado. Procura por peixe em ondas de macadame, mas não encontra senão a realização de uma calçada impenetrável, onde verminam pastilhas elásticas caladas e pegadas fossilizadas de imigrantes. No quarto, sob o véu amarelo de flanela, dois sôfregos animais esfregam as peles cansadas e gemem de cio insatisfeito, de dor, que os sexos estão doridos das sucessivas cópulas violentas, as quais, segundo procedimento exarado e tantas vezes revisto nos anais da ciência destas atividades recreativas, são necessárias para que a brancura consolada se possa infiltrar em ambos os indivíduos.
Por isso, não obstante ao facto de os vizinhos do 4º andar esbaforirem fartos das cacetadas do catre, que se arrasta ruidosamente pelo chão, que é, afinal, o seu teto, nem ao olhar metediço de um felino que vagueia pelas telhas de zinco, paralelas ao vidro embaciado da janela que já não serve para focar o rio, mas sim aquele turbilhão de unhas afiadas, de braços que dançam, de bocas aleijadas na sua fome de gosto canibal, os dois seres, mescla difusa de dois géneros indistintos, partem nessa demanda pelo prazer egoísta, por um momento de cansaço para que possam dormir refeitos de tantas insónias de castidade.
Campainhas que rangem, televisão que adormece numa estática estridente, pequeno e irritante cãozinho que arranha a porta branca com rapidez de se evadir da cozinha de azulejos cobertos de vapor, máquina de lavar a contorcer-se num ataque epilético, canário dos vizinhos que assusta disparatadamente a menina que dorme no rés-do-chão. Todo o mundo num reboliço vertiginoso, numa pressa ansiosa para se cumprir, para que o tempo corra e ataque vorazmente as coisas e se delicie na tarefa de ir levando, membro a membro, o que efemeramente resta aqui. Num crepitar de movimentos inflamados, uma valsa nupcial enrola uma amálgama de gestos num lençol que arde; os seios pálidos diluíam-se no peito arfante oprimido, pernas lambiam-se em caminhares secretos, umbigos ligavam-se, encontrando mil cordões umbilicais garridos, dedos mastigavam as carnes com a doença da incerteza.
O dia veio com os espinhos de um cardo florido. Ela levantou-se e vestiu uma camisa que restava no chão palmado, entre os muitos mais despojos dessa guerra sanguinária. Só ali disse o seu nome, enquanto mordia um copo de vidro, de onde jorrava um líquido âmbar. Penélope.