Nós os feios. Soa a coitadinho, a carneiro mal-morto, a cachorro que pede um cafuné para apagar a sua dor,a uma dor risonha que nos escala até ao topo dos humores e nos desperta um sorriso de impiedosa pena. Sim, nós os feios,somos a linha transparente que permite desenrascar os bonitos e os deuses, somos aqueles que aprenderam a descer desde o dia em que o médico se entristeceu quando viu a nossa expressão medonha, como se sofresse já ele pelo que nós haviamos de passar onde passássemos. Nós somos quem usa da palavra para ser belo, e alguns deles nem isso sabem usar.Ser feio não é condição, é falta decadente de ilusão. Aos nossos olhos, a perfeição alojou-se no inalcansavel e a merda vive e respira entre nós. Em cada pessoa bonita, arranjamos o defeito que ninguem vê,devido a esse ninguem estar especado a vigiar-lhe os enormes seios ou os lábios carnudos; vemos a curva alongada do nariz, o resto de carne a brilhar perante a alvura da dentadura perfeita, vemos o prenuncio da morte na felicidade. Nós que nunca nos enganámos e nascemos descontentes com o espetáculo do Mundo, desculpa Ricardo Reis, nós que não nos permitimos a cair uma lágrima sobre a cómoda com os papeis timbrados de saudades.
As rosas sempre foram mais estranhas que os corvos e os beijos eram so caricias com os lábios. Desconstruímos tudo até a coisa deixar de funcionar e tentámos prevalecer sobre a boa aparência. Perdemos sempre, mas cada palavra negra que nos sai da boca é uma lasca de porcelana chinesa a partir-se da cara das loiraças tipo Ingrid Bergman.
E mesmo que não faça sentido e que seja mentira, odiamos a beleza por já sabermos tudo, por já sabermos demais.
Não são os punhais que nos matam, são as previsões corretas.Só isso. Em grande parte isso.