domingo, 30 de dezembro de 2012

Rasgo animalesco

Penso que já não sei do que é que sou feito, de que massa áspera e dura é que me revisto, que coisa me faz rir e me faz chorar. Começo, como toda a gente, a perder o sentido de si próprio, a afundar-me na monotonia de ser só um corpo, rios de sangue, orgãos e neurónios. Afinal, quem devíamos ser senão isso, humanos, mortais, estragados pelas visões dos outros, sem nunca ser quem realmente desejamos ser. Se um míudo quer ser astronauta, é louco e será caixa no pingo doce.
Que rídiculo este munduzinho, este vestido que trajamos todos os dias que saímos à rua fria, sem nunca podermos estar verdadeiramente nus, devido ao escândalo que isso traria. E as opiniões...Nem me falem, temos que sempre apresentá-las uma e nunca variar, somos troca tintas se o fizermos, sacaninhas pulando entre o melhor de dois mundos.
No fim, nem sei porque estou tão irritado, a sociedade é assim, eu sou assim, a vida tem prazo de validade e nós estamos sempre com ânsia que ele chegue. Enfim, mais valia nascer animal, senão nascemos já.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O primeiro homem


Era uma vez, num tempo mais remoto que aquele em que os Deuses viviam na terra, um mundo cego onde as pessoas viam, mas que apenas se limitavam a isso. Era tudo como uma bola cinzenta sem esperança e sem rumo que rodava em volta do nada, um planeta distante daquele que vemos pelas imagens espaciais das agências internacionais e, por incrível que nos pareça, o mais parecido com aquele em que habitamos. Estranho este desfilar de antíteses, este corredor de contradições que se estende desde o início da história, mas percebamos que a vida é isso e que as histórias, tal como a vida em si, são desfiles de metáforas e figuras de estilo elaboradas que só chegarão a ser compreendidas quando acabam.E nesse tempo, nesse mundo distante e próximo, vivem homens e mulheres de feições semelhantes aos de hoje, bem arranjados, cansados, de certa forma mendigos de um sistema computorizado, de semblante carregado. Os homens sempre com a miserável pastinha preta na mão direita, chapéu de coco na cabeça, bigodes, quem os tem, encerados, mas maior parte dos especimens masculinos nem bigode têm, apenas uma cara escanhoada na perfeição, cinzenta-esverdeada de raparem os pelos esbranquiçados todos os dias. As mulheres, por muito machista que possa parecer, estão condicionadas às quatro paredes das casas, que são todas iguais, e mais especificamente à cozinha, onde preparam os manjares para os estafados maridos que almoçam ao 12h00 e às 17h00 chegam, impreterivelmente, a casa, onde são recebidos com um certo beijo amoroso. Elas apenas tiram o avental quando saciam toda a família, que terá no mínimo 3 filhos, e só descansam quando a casa está tão limpa como uma pérola áurea.
Os dias correm assim, automatizados, basta apenas cumprir as regras que o governo dita, ele que é o soberano de todos aqueles que respiram neste mundo: entregar-nos ao trabalho, que é vitalício e não se muda, arranjarmos uma mulher, comprar uma casa igual a todas as outras, iguais entre si, criar uns fedelhos que nós fizemos nascer, fazer umas férias num parque de campismo, onde sorrimos para expressarmos a nossa felicidade, reformarmo-nos, discutir com a mulher sobre o facto de ela ter trocado o sítio habitual do copo com água, onde descansa a placa, ver maratonas de televisão, pentear os poucos cabelos brancos, assobiar à rapariga nova que vemos passar do outro lado da janela, adoecer devido à exaustão da nossa vida e à queda na banheira e, por fim, morrer. Parece simples, os homens e as mulheres tinham apenas de cumprir este plano e o paraíso estava-lhes destinado, sem quaisquer reclamações por parte do Estado. Mas eis senão quando, e reparem que todas as histórias têm de fazer esta viragem para contrariar a introdução, um homem, digamos com uns 30 anos, que tinha um destino traçado como industrial, disse que não a tudo. Mas a tudo o quê? Disse não à cara limpa e ao bigode encerado e deixou crescer uma barba negra, pontiaguda, como aquela que os faraós imponentes mostram sem medo, negou às três pretendentes belíssimas que o cobiçavam, que a cobiça neste país faz-se ao contrário, e foi viver com um homem, era homossexual não por ter o espírito da contradição, mas porque amava homens, nunca andou de pasta preta nem de chapéu de coco e abominava a rotina, era um espírito livre que sorria, e que escândalo provocava ao mostrar os dentes níveos, à vida e nunca se cansou de ser ele mesmo, por vezes até mendigava. Acreditava na igualdade dos sexos, na escolha do trabalho que queremos, na diversidade, no amor, no sexo, na arte e acreditava na Anarquia, que o governo empatava a vida. Por vezes anunciava as suas ideias nas ruas, perante olhares escandalizados e discípulos.
Num daqueles dias que a história muda nas estórias, o governo, o já tão falado comité divino que determina as regras da vida das pessoas, reuniu-se urgentemente. Jacob, o velho de cabelos brancos e bigode longo e encerado, de fato clássico, com um emblema triangular na lapela do casaco perfeitamente engomado, atrasara-se para o comício e corria agora o último lance de escada que o separava da porta de vidro. Quando entrou, os presentes levantaram-se, cumprimentaram-no com as honras necessárias, obrigatórias no cumprimentar de um presidente de tão ilustre Governo, deram-lhe espaço para ele passar e esperaram que o protagonista se sentasse na cadeira dourada, a única.
- Sabem porque estamos aqui.

Sabiam de facto. Tinham-se levantado os doze às 4h00 da manhã, alarmados com o telefonema do Presidente. Estavam naquela mesa de vidro retangular, como tantos outros tinham estado nos séculos anteriores, para escolher aqueles que deviam ser sacrificados em prol do bem-estar da civilização. Não uma oferenda aos deuses, mas uma oferenda à população, um espetáculo de horrores a que todos assistiam, pálidos e serenos, vendo o fogo azul consumir os que já estavam predestinados, esses que nasciam para morrer, "A bem do Mundo", apregoavam os cartazes que anunciavam tal espetáculo.
Porém este ano a coisa seria diferente, não seriam mortos 4 homens, como era o habitual, seria morto um, Miguel Farali, filho de um industrial e de uma dona de casa, perverso, amante de coisas impróprias, nojento, sádico, contranatura, ele que ofendia os costumes cada vez que respirava e apregoava um mundo diferente do que estava perante os olhos da gente, ele que defendia que o sagrado governo, o comité do olimpo, fosse destituído!

"A vida deste homem é um ultraje para a sociedade, será o melhor presente que a população pode querer", pensavam sorridentes os 13 na mesa. Discutiram como seria a execução, deliberaram sobre o facto de se poder tornar mais penosa para o libertino, mas tiveram misericórdia, eram pessoas benevolentes. Definida a vítima, tratado o processo legal que antecedia à prisão da mesma, arrumaram as suas medíocres pastinhas pretas, abraçaram-se como se se conhecessem à cerca de 2000 anos e abandonaram o complexo vítreo, deixando-o despovoado e triste.
Era dia 24 de Dezembro, Dia da Vida, como lhe chamava, ironicamente, Jacob, Miguel percorria o habitual caminho dos condenados, com as grilhetas a estalarem nas pedras do caminho, ouvia insultos, alguns choros até, e continuava a sorrir perante o abismo, não daria nunca a parte fraca perante aqueles ditadores, energúmenos, eles que não compreendiam a Natureza Humana nem nunca tinham sido humanos nas suas vidas de carrascos.

Chegou à fogueira azul quando o relógio do Ministério Humanitário tocou as doze badaladas, era dia 25 agora, momento do entretenimento começar. Foi empurrado por dois homens de fato vermelho e caiu na confusão do fogo e da palha que o alimentava. Ao príncipio, doeu-lhe entrar naquele berço flamejante mas depois, sabendo que a salvação não viria, deixou o fogo de lhe purgar o corpo e a alma, tudo era uma massa azul, as pessoas, o tempo, o espaço, o Universo. Contrariando as regras do Mundo, mais uma vez, falou:
- Calam-me como calam a humanidade.- gritou- Tudo se resume a este vosso projeto a que vocês chamam de vida e que nem toca nessa meta sagrada, desafio até a todos aqueles que me ouvem a dizerem Eu Amo-te à vossa esposa. Acredito que nem um terá a força de fazer isso, porque são todos forçados a gostarem de uma mulher. Eu sempre amei homens, confesso, mas amei-os!
- Cala-te- gritou com a cara rubra Jacob

-Agora Jacob? Agora não, agora que eu exponho o vosso consellhozinho de Deuses, seus sacripantas que não vivem nem deixam viver, que não ouvem musica, que acham que o mundo é monocromático! Enganam-se os presentes, o Mundo é belo e nós também o somos, temos a capacidade de amar e de ver a beleza, mas não as usamos devido a sacanas como estes!
O fogo acompanhava a fúria de Jacob que quase rogava às chamas que levassem Farali. Por fim, ele expirou e desapareceu no ar, como um sonho. Jacob riu-se no fim de tudo e mandou à multidão que dispersasse. Os que tinham visto aquilo, não cumpriram a regra e rodearam Jacob. Ele gritou pela sensatez mas quando tentou mais uma vez foi morto.

E foi assim que o Mundo conheceu o primeiro homem, aquele que despoletou o Big Bang, metaforica e literalmente.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Desabafo do Jejum

Não quero sair da cama. Talvez nunca na minha vida o deveria ter feito. Em situação alguma o mundo precisou de mim, apenas eu é que preciso dele, infelizmente. Aborrece-me ir enfrentar o mundo problemático lá de fora, ter de ultrapassar a janela, cravar uns bocados de vidro na carne (que o humano não é mal educado e necessita de sofrer e guardar a lágrima), olhar as pessoas e não me limitar à imagem, ter de penetrá-las para lhes sentir o verdadeiro gosto. Que merda, que merda, QUE MERDA!
Chega de risinhos comodistas, de falares sacanas, da musica que não o é, dos que são de esquerda, dos que são de direita, dos que são de meio, dos que são anárquicos, dos que vêm o futuro fatalistas, dos que aguentam isto calados (e se falarem é mentira), basta da raça humana que nada de bom tem feito, que nada de bonito tem criado.
Basta do mundo e dos seus truques de algibeira, da sua necessidade consequente de nos matar e de nunca nos dizer a verdade, e de mim e das minhas contradições e das minhas atitudes absurdas, eu que falo mal de ti, sim de ti que me vês e não fique mal que toda a gente fala mal uns dos outros, só que não se admite que é feio, que preciso do teu abraço e tu mo negas, eu que já tentei fazer-te feliz mas tu quiseste ir ao fundo!
Vou sair da cama, sou obrigado pelo meu progenitor, vou ter de ir comer, de ir tomar banho, de enfrentar a sociedade que não morre sem mim. Vou ter de ir ao mundo. Até já.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Rio de Sangue

Água. A mulher que saltava para o rio gelado sabia o que a esperava e mesmo assim saltou, sem dor, com um sorriso tóxico, fantasmagórico, que iluminava a névoa, manto esbranquiçado que cobria o que lhe aparecesse. Matilde olhou a Lua enquanto rodopiava, pensou no que poderia ter acontecido de diferente se não tivesse conhecido Santiago nem Rita. Tudo teria tomado o rumo habitual das coisas, ela continuaria à procura de quem lhe inspirasse os quadros, tomaria a carne de alguns dos seus modelos, para "lhes tirar a essência da arte", apontaria o seu numero de telefone, guardaria o nome com um asterisco, que ela utilizava para marcar aqueles e aquelas com quem já tinha visto " a Lua" e que gostara, e com um ponto de exclamação aqueles que a dose não seria para repetir. Tudo em prole da arte, essa que exige aos inspirados todas as almas e todos os sopros de beleza dos meros objetos do mundo que somos. Mas o Mundo não volta atrás (pior até se o fizesse) e a visão do inferno líquido, frio, mantém-se real perante os olhos negros da suicida aérea, ela que pegara num estilhaço de espelho e rasgara os pulsos alvos, agora poços do inesgotável sangue, poços da morte (essa que apresenta sempre uma pontualidade Britânica).
O corpo embateu por fim na negrura do rio, suspenso no interior do purgatório, entre a vida e a morte. Os olhos balouçavam tristes e tentavam alcançar a superfície, a vida, mas a escolha tinha sido feita, os dados lançados sobre a divinal mesa e as cartas atiradas ao ar. Gritou com uma força minuscula pelos nomes daqueles que a tinham levado àquele rio, (que dizem os velhos de quem ninguém foge) fechou os olhos, respirou a única coisa que a rodeava e... Fim. Nem a vida lhe passara aos olhos, nem as imagens dos pais a ensinarem-na a pintar, nem o primeiro e único homem que amou, nem as noites de luxúria, nem aquela noite que lhe encaminhou o fado, NADA, os olhos apenas se trancaram, a boca escancarou-se e os braços acompanharam o movimento do corpo nu, sem alma.
Na avenida da cidade, jazia um homem e uma mulher numa poça vermelha.Os que primeiro chegaram disseram que se tratava do Dr. Santiago e da Rita, a sedutora pianista da terra. Os velhos diziam que tinha sido uma artista, uma daquelas pintoras que pintam formas imprecisas mas são consideradas Deusas. Esta, andava "engalfinhada" com os dois cadaveres, separadamente, "mas o Sr. Dr. era por quem ela tudo faria, por isso é que ao apanhá-los aos dois em assuntos de lençol os atirou pela janela a baixo".
Já se sabe que os velhos inventam, esmiuçam os factos que ouviram da boca maldicente, porém desta vez façamos o favor de acreditar na sua sábia palavra...
Matilde esborratou o rímel, os cabelos fulvos começavam a ficar flamejantes perante a sua fúria, maldita a hora em que aqueles dois se deitaram juntos, chorou e gritou ate os pulmões arderem de cansaço, chegara a hora de assumir o papel de destino. Levantou-se na ira descontrolada da traição e ergueu bem alto o punhal, ah símbolo tão antigo da justiça, queria vê-los, prazeirentos, a consumirem-se nus no leito do apartamento, onde tantas vezes ela tinha sido consumida por Santiago, a afagarem as faces um do outro contraidas de desejo, sedentas de luxúria e glorificação.
E quanto mais pensava nisto, mais via claro o seu destino curto, de horas, e mais corria, qual louca, para o ninho dos amantes, "esse pombal repugnante", e chorava de raiva, de um pingo de amor pelos dois que tinha sido destruído, um pingo da sua enocência que lhe tinha sido roubado.
Enfiou a chave na ranhura e abriu a porta velha. Rangia. Subiu as escadas quatro a quatro, chegou ao andar, empurrou de leve a porta, que estava ligeiramente encostada e entrou naquele antro de devassidão. Percorreu o longo corredor dourado, coberto pelas suas telas, e chegou ao quarto.
Quando recuperou do primeiro choque que a abateu observou a cena: Rita rasgara a garganta de Santiago e estava cheia daquele encarnado vivo. Dançava sobre a luz da lua, entoava cânticos pagãos e ria-se maniacamente enquanto do outro lado, Matilde tentava digerir as malhas do destino.
"Oh Matilde, eu sempre pensei que soubesses que eu tinha uma atração pela morte" e rodopiava, rápida e efusiva, como se de um palhaço macabro se tratasse. Matilde não se conteve e jogou-se a ela, tentou esfaqueá-la, mas acabou por perceber que ela já o tinha feito a si mesma e que, agora, jazia no seu colo, sorridente, de dentes a mostra.
Não suportou aquela cena de horror, o amor derrotado e esmigalhado em pedaços de carne humana. Quanta dor sofria, quanto o espanto perante a cena e perante Santiago morto, que assim o estava para obdecer ao fetiche de Rita, a demente pianista.
Matilde viu apenas o caimnho do rio, jogou os dois corpos pela janela e quando se ouvio o embate das ossadas no passeio já ela caminhava na penumbra em direção ao rio íman e ao rodopio do fim da vida.
Agora só os velhos podem contar a história de Matilde. E ainda há até quem acredite nas suas palavras.