domingo, 24 de fevereiro de 2013

Adormecer

Fecham-se as rosas bravas nos campos queimados pelo Verão. As searas agitam-se dolentemente, sem pressa, espalhando pelo ar a nostalgia do crepúsculo, a tristeza pelo fim do dia, a mágoa pelo brotar do frio e da Lua.
Os homens das rugas profundas foram ensinados desde mancebos que chegou a hora de enterrar o Sol, que chegou o tempo de deixarem florescer o planeta frio e branco e deixarem germinar o gigante dourado, para que renasça em sua plena graciosidade no dia seguinte. E se cá não estiverem, ele brotará da terra, sem grandes confusões, e trará o calor e a luz que caiu dos corpos de quem foi para não voltar.
Alguém desembrulha um lençol estrelado sobre o firmamento e desaparece todo aquele laranja-roseado que dominava os céus do Mundo.Vai-se o odor a vida, fica o odor a medo. Medo de que a noite seja eterna nos corpos de quem fica e que não haja a fogueira lendária que alumia as faces velhas e novas das gentes.
Os marinheiros olham o escuro como paz, como se o espírito dos Deuses varresse o Mundo e o acalmasse. Cansados estão eles de serem fustigados pelo sal e pelo sol, tristes de viverem embarcados sem puderem enxergar companhia que lhes lave os tormentos da alma e as feridas do corpo. Mas a noite é o despertar das ninfas, o jorrar incessante de vinho pelas gargantas, o acordar das luxúrias aprisionadas. O dia é o sol, a luz, e o sol pede sangue e suor e esforço. Melhor que venha o azul profundo e que se funda religiosamente com o mar que os empurra para o seu fado, na maior parte das vezes triste e inseguro.
A negrura apodera-se dos homens, das coisas, dos espaços, e alegra-os, entristece-os, fazem-se canções e compõem-se poemas em honra dela. Sobre a sua alçada matam-se homens, choram as suas viuvas, riem-se os loucos e sonham os pobres, ardem as paixões e os seus atores,os medos consomem os ladrões, a verdade atormenta quem a não disse. Eu eu aqui sentado, perante a miséria e a glória, sereno frente ao Mundo, ridiculamente sereno, observando o adormecer das águas e o triste gemer das terras.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carta a Salomé

Minha Waterloo

Nunca pecebi esse tua mania repentina de industrializares aquilo que tinhamos, de tornares clichê aquilo que era tão espontâneo, tão imaginário, tão fora da realidade. Nem vou tentar compreender. Quer dizer, vou contestar com este meu músculo que sangra com uma esquírola de vidro que o dilacera segundo a segundo.Vou porque te quero ofender e culpar, vou porque te quero ver despedaçada, as lascas de porcelana a encherem o chão encerado e tu a gritares de uma dor interior. A dor de teres matado o nosso amor!
Sim, foste tu! Não fui eu com as minhas saídas à noite com os rapazes, nem o facto de às vezes adormecer quando tu me contavas o teu atarefado dia de trabalho, nem a particularidade de ter os dentes amarelos, níveos como pérolas quando tu me conheceste, de tanto puxar de um cigarro para encenar uma daquelas poses do Humphrey Bogart; Foste sim tu com as encenações perante as tuas amigas deploraveis,quando me mostravas como um cão que comia na tua palma estendida, foste sim tu com os chocolatinhos e as velas no dia dos namorados, com a obrigação de me quereres vestido com um fatinho azul, uma gravata escura e um lenço branco no bolso esquerdo do blazer, quando apenas íamos comer à churrasqueira do fim da rua, um lugar dignissimo do meu mais fino vestir.
Talvez com isto tenhas aprendido que, por muito que soe contraditório, o romantisnmo mata o romance, que a paixão crua sabe melhor, que sabermos adorar o lado negro e estúpido de cada um é tão sensual como uma lingirie vermelha ou uma mensagem obscena por telemóvel. Afinal, tu só adoraste o que eu tinha de melhor. Eu não, por muito que soe clichê desculpar-me, eu adorei até aquele teu riso histérico, o falares alto durante o sono e até o ressonar, aquele teu fanatismo pelo sporting que eu desprezei mas amei por te pertencer. Tu nem aguentavas o meu hábito de beber um calicezinho, que acabava invariavelmente por ser uma taça, de vinho do Porto.
Gostava de te ter chamado megera, filha de um cão; de te ter mandado para um sítio bem distante do Paraíso e próximo do Inferno de Dante, mas ainda resta uma cinza escura de paixão à espera que um vento vadio a sopre e nasça uma labareda.Primeiro mortiça,escura, apenas um calorzinho nascente, depois um relampejar de uma chama laranja, um sangrar de movimentos.
Contudo não acredito que renasça esse rumor de fogo. Não quero.
Esta é uma carta de um amor esquartejado e queimado, deitado ao rio pela força da tinta. Uma carta para ti, que te revelaste o mais eximio algoz com quem eu alguma vez travei um laço adocicado, tornado pó.
Tu não tens rosto. A minha memória tua será sempre a do fracasso magoado, a da sede de sangue. Para mim não passarás de uma memória perdida nas carruagens do tempo.

Adeus Salomé, espero que sofras.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

É estranho

Cada um de nós é um facto inadiavelmente predestinado a ser apagado das linhas do Mundo. Mesmo dito de forma suave soa a merda, digamos que nunca iremos acreditar que vamos morrer, nunca iremos compactuar com a ideia da eternidade, essa realidade chata, lenta, aborrecidamente eterna, nem com o final de tudo, visto que se acabarmos o Mundo acabou.
Devido a esta ilusão decidimos, pelo menos eu adoro, criar personagens imortais, musas, mesmo que não sejamos escritores nem pintores.Vê-mos esses cavaleiros corajosos, essas damas de fumo e sonho, a tomarem posse de nós, a mover-nos, a ser-nos.
Identifico-me sempre com uma personagem decadente, um velho, se quisermos chamar os bois pelos nomes, que está rodeado pela mágoa e pelo beijo eminente da Morte.
Sempre tive um fascínio agridoce com essa companheira de viagem.Pensar que irei morrer è aterrador, mas pensar na morte chega a ser um misto de tranquilidade e paz. Estranho, pensam, Estranho, penso.
O velho de que falo nunca amou, em parte é a reflexão da minha derrota enquanto sonho imortal, em parte é o meu todo conspurcado pela velhice prematura, pelo sentimento de que daqui a 3 segundos posso socumbir à peste negra ou à lepra.
Nada vos interessa isto, este apresentar do velho e do meu replente interior. Queriam um paraíso, com uns animaizinhos adoraveis e um sol resplandecente? Acredito, mas nesta farmácia só se vende do que se mostrou.