Fecham-se as rosas bravas nos campos queimados pelo Verão. As searas agitam-se dolentemente, sem pressa, espalhando pelo ar a nostalgia do crepúsculo, a tristeza pelo fim do dia, a mágoa pelo brotar do frio e da Lua.Os homens das rugas profundas foram ensinados desde mancebos que chegou a hora de enterrar o Sol, que chegou o tempo de deixarem florescer o planeta frio e branco e deixarem germinar o gigante dourado, para que renasça em sua plena graciosidade no dia seguinte. E se cá não estiverem, ele brotará da terra, sem grandes confusões, e trará o calor e a luz que caiu dos corpos de quem foi para não voltar.
Alguém desembrulha um lençol estrelado sobre o firmamento e desaparece todo aquele laranja-roseado que dominava os céus do Mundo.Vai-se o odor a vida, fica o odor a medo. Medo de que a noite seja eterna nos corpos de quem fica e que não haja a fogueira lendária que alumia as faces velhas e novas das gentes.
Os marinheiros olham o escuro como paz, como se o espírito dos Deuses varresse o Mundo e o acalmasse. Cansados estão eles de serem fustigados pelo sal e pelo sol, tristes de viverem embarcados sem puderem enxergar companhia que lhes lave os tormentos da alma e as feridas do corpo. Mas a noite é o despertar das ninfas, o jorrar incessante de vinho pelas gargantas, o acordar das luxúrias aprisionadas. O dia é o sol, a luz, e o sol pede sangue e suor e esforço. Melhor que venha o azul profundo e que se funda religiosamente com o mar que os empurra para o seu fado, na maior parte das vezes triste e inseguro.
A negrura apodera-se dos homens, das coisas, dos espaços, e alegra-os, entristece-os, fazem-se canções e compõem-se poemas em honra dela. Sobre a sua alçada matam-se homens, choram as suas viuvas, riem-se os loucos e sonham os pobres, ardem as paixões e os seus atores,os medos consomem os ladrões, a verdade atormenta quem a não disse. Eu eu aqui sentado, perante a miséria e a glória, sereno frente ao Mundo, ridiculamente sereno, observando o adormecer das águas e o triste gemer das terras.
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