
Nunca pecebi esse tua mania repentina de industrializares aquilo que tinhamos, de tornares clichê aquilo que era tão espontâneo, tão imaginário, tão fora da realidade. Nem vou tentar compreender. Quer dizer, vou contestar com este meu músculo que sangra com uma esquírola de vidro que o dilacera segundo a segundo.Vou porque te quero ofender e culpar, vou porque te quero ver despedaçada, as lascas de porcelana a encherem o chão encerado e tu a gritares de uma dor interior. A dor de teres matado o nosso amor!
Sim, foste tu! Não fui eu com as minhas saídas à noite com os rapazes, nem o facto de às vezes adormecer quando tu me contavas o teu atarefado dia de trabalho, nem a particularidade de ter os dentes amarelos, níveos como pérolas quando tu me conheceste, de tanto puxar de um cigarro para encenar uma daquelas poses do Humphrey Bogart; Foste sim tu com as encenações perante as tuas amigas deploraveis,quando me mostravas como um cão que comia na tua palma estendida, foste sim tu com os chocolatinhos e as velas no dia dos namorados, com a obrigação de me quereres vestido com um fatinho azul, uma gravata escura e um lenço branco no bolso esquerdo do blazer, quando apenas íamos comer à churrasqueira do fim da rua, um lugar dignissimo do meu mais fino vestir.
Talvez com isto tenhas aprendido que, por muito que soe contraditório, o romantisnmo mata o romance, que a paixão crua sabe melhor, que sabermos adorar o lado negro e estúpido de cada um é tão sensual como uma lingirie vermelha ou uma mensagem obscena por telemóvel. Afinal, tu só adoraste o que eu tinha de melhor. Eu não, por muito que soe clichê desculpar-me, eu adorei até aquele teu riso histérico, o falares alto durante o sono e até o ressonar, aquele teu fanatismo pelo sporting que eu desprezei mas amei por te pertencer. Tu nem aguentavas o meu hábito de beber um calicezinho, que acabava invariavelmente por ser uma taça, de vinho do Porto.
Gostava de te ter chamado megera, filha de um cão; de te ter mandado para um sítio bem distante do Paraíso e próximo do Inferno de Dante, mas ainda resta uma cinza escura de paixão à espera que um vento vadio a sopre e nasça uma labareda.Primeiro mortiça,escura, apenas um calorzinho nascente, depois um relampejar de uma chama laranja, um sangrar de movimentos.
Contudo não acredito que renasça esse rumor de fogo. Não quero.
Esta é uma carta de um amor esquartejado e queimado, deitado ao rio pela força da tinta. Uma carta para ti, que te revelaste o mais eximio algoz com quem eu alguma vez travei um laço adocicado, tornado pó.
Tu não tens rosto. A minha memória tua será sempre a do fracasso magoado, a da sede de sangue. Para mim não passarás de uma memória perdida nas carruagens do tempo.
Adeus
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