segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O primeiro homem


Era uma vez, num tempo mais remoto que aquele em que os Deuses viviam na terra, um mundo cego onde as pessoas viam, mas que apenas se limitavam a isso. Era tudo como uma bola cinzenta sem esperança e sem rumo que rodava em volta do nada, um planeta distante daquele que vemos pelas imagens espaciais das agências internacionais e, por incrível que nos pareça, o mais parecido com aquele em que habitamos. Estranho este desfilar de antíteses, este corredor de contradições que se estende desde o início da história, mas percebamos que a vida é isso e que as histórias, tal como a vida em si, são desfiles de metáforas e figuras de estilo elaboradas que só chegarão a ser compreendidas quando acabam.E nesse tempo, nesse mundo distante e próximo, vivem homens e mulheres de feições semelhantes aos de hoje, bem arranjados, cansados, de certa forma mendigos de um sistema computorizado, de semblante carregado. Os homens sempre com a miserável pastinha preta na mão direita, chapéu de coco na cabeça, bigodes, quem os tem, encerados, mas maior parte dos especimens masculinos nem bigode têm, apenas uma cara escanhoada na perfeição, cinzenta-esverdeada de raparem os pelos esbranquiçados todos os dias. As mulheres, por muito machista que possa parecer, estão condicionadas às quatro paredes das casas, que são todas iguais, e mais especificamente à cozinha, onde preparam os manjares para os estafados maridos que almoçam ao 12h00 e às 17h00 chegam, impreterivelmente, a casa, onde são recebidos com um certo beijo amoroso. Elas apenas tiram o avental quando saciam toda a família, que terá no mínimo 3 filhos, e só descansam quando a casa está tão limpa como uma pérola áurea.
Os dias correm assim, automatizados, basta apenas cumprir as regras que o governo dita, ele que é o soberano de todos aqueles que respiram neste mundo: entregar-nos ao trabalho, que é vitalício e não se muda, arranjarmos uma mulher, comprar uma casa igual a todas as outras, iguais entre si, criar uns fedelhos que nós fizemos nascer, fazer umas férias num parque de campismo, onde sorrimos para expressarmos a nossa felicidade, reformarmo-nos, discutir com a mulher sobre o facto de ela ter trocado o sítio habitual do copo com água, onde descansa a placa, ver maratonas de televisão, pentear os poucos cabelos brancos, assobiar à rapariga nova que vemos passar do outro lado da janela, adoecer devido à exaustão da nossa vida e à queda na banheira e, por fim, morrer. Parece simples, os homens e as mulheres tinham apenas de cumprir este plano e o paraíso estava-lhes destinado, sem quaisquer reclamações por parte do Estado. Mas eis senão quando, e reparem que todas as histórias têm de fazer esta viragem para contrariar a introdução, um homem, digamos com uns 30 anos, que tinha um destino traçado como industrial, disse que não a tudo. Mas a tudo o quê? Disse não à cara limpa e ao bigode encerado e deixou crescer uma barba negra, pontiaguda, como aquela que os faraós imponentes mostram sem medo, negou às três pretendentes belíssimas que o cobiçavam, que a cobiça neste país faz-se ao contrário, e foi viver com um homem, era homossexual não por ter o espírito da contradição, mas porque amava homens, nunca andou de pasta preta nem de chapéu de coco e abominava a rotina, era um espírito livre que sorria, e que escândalo provocava ao mostrar os dentes níveos, à vida e nunca se cansou de ser ele mesmo, por vezes até mendigava. Acreditava na igualdade dos sexos, na escolha do trabalho que queremos, na diversidade, no amor, no sexo, na arte e acreditava na Anarquia, que o governo empatava a vida. Por vezes anunciava as suas ideias nas ruas, perante olhares escandalizados e discípulos.
Num daqueles dias que a história muda nas estórias, o governo, o já tão falado comité divino que determina as regras da vida das pessoas, reuniu-se urgentemente. Jacob, o velho de cabelos brancos e bigode longo e encerado, de fato clássico, com um emblema triangular na lapela do casaco perfeitamente engomado, atrasara-se para o comício e corria agora o último lance de escada que o separava da porta de vidro. Quando entrou, os presentes levantaram-se, cumprimentaram-no com as honras necessárias, obrigatórias no cumprimentar de um presidente de tão ilustre Governo, deram-lhe espaço para ele passar e esperaram que o protagonista se sentasse na cadeira dourada, a única.
- Sabem porque estamos aqui.

Sabiam de facto. Tinham-se levantado os doze às 4h00 da manhã, alarmados com o telefonema do Presidente. Estavam naquela mesa de vidro retangular, como tantos outros tinham estado nos séculos anteriores, para escolher aqueles que deviam ser sacrificados em prol do bem-estar da civilização. Não uma oferenda aos deuses, mas uma oferenda à população, um espetáculo de horrores a que todos assistiam, pálidos e serenos, vendo o fogo azul consumir os que já estavam predestinados, esses que nasciam para morrer, "A bem do Mundo", apregoavam os cartazes que anunciavam tal espetáculo.
Porém este ano a coisa seria diferente, não seriam mortos 4 homens, como era o habitual, seria morto um, Miguel Farali, filho de um industrial e de uma dona de casa, perverso, amante de coisas impróprias, nojento, sádico, contranatura, ele que ofendia os costumes cada vez que respirava e apregoava um mundo diferente do que estava perante os olhos da gente, ele que defendia que o sagrado governo, o comité do olimpo, fosse destituído!

"A vida deste homem é um ultraje para a sociedade, será o melhor presente que a população pode querer", pensavam sorridentes os 13 na mesa. Discutiram como seria a execução, deliberaram sobre o facto de se poder tornar mais penosa para o libertino, mas tiveram misericórdia, eram pessoas benevolentes. Definida a vítima, tratado o processo legal que antecedia à prisão da mesma, arrumaram as suas medíocres pastinhas pretas, abraçaram-se como se se conhecessem à cerca de 2000 anos e abandonaram o complexo vítreo, deixando-o despovoado e triste.
Era dia 24 de Dezembro, Dia da Vida, como lhe chamava, ironicamente, Jacob, Miguel percorria o habitual caminho dos condenados, com as grilhetas a estalarem nas pedras do caminho, ouvia insultos, alguns choros até, e continuava a sorrir perante o abismo, não daria nunca a parte fraca perante aqueles ditadores, energúmenos, eles que não compreendiam a Natureza Humana nem nunca tinham sido humanos nas suas vidas de carrascos.

Chegou à fogueira azul quando o relógio do Ministério Humanitário tocou as doze badaladas, era dia 25 agora, momento do entretenimento começar. Foi empurrado por dois homens de fato vermelho e caiu na confusão do fogo e da palha que o alimentava. Ao príncipio, doeu-lhe entrar naquele berço flamejante mas depois, sabendo que a salvação não viria, deixou o fogo de lhe purgar o corpo e a alma, tudo era uma massa azul, as pessoas, o tempo, o espaço, o Universo. Contrariando as regras do Mundo, mais uma vez, falou:
- Calam-me como calam a humanidade.- gritou- Tudo se resume a este vosso projeto a que vocês chamam de vida e que nem toca nessa meta sagrada, desafio até a todos aqueles que me ouvem a dizerem Eu Amo-te à vossa esposa. Acredito que nem um terá a força de fazer isso, porque são todos forçados a gostarem de uma mulher. Eu sempre amei homens, confesso, mas amei-os!
- Cala-te- gritou com a cara rubra Jacob

-Agora Jacob? Agora não, agora que eu exponho o vosso consellhozinho de Deuses, seus sacripantas que não vivem nem deixam viver, que não ouvem musica, que acham que o mundo é monocromático! Enganam-se os presentes, o Mundo é belo e nós também o somos, temos a capacidade de amar e de ver a beleza, mas não as usamos devido a sacanas como estes!
O fogo acompanhava a fúria de Jacob que quase rogava às chamas que levassem Farali. Por fim, ele expirou e desapareceu no ar, como um sonho. Jacob riu-se no fim de tudo e mandou à multidão que dispersasse. Os que tinham visto aquilo, não cumpriram a regra e rodearam Jacob. Ele gritou pela sensatez mas quando tentou mais uma vez foi morto.

E foi assim que o Mundo conheceu o primeiro homem, aquele que despoletou o Big Bang, metaforica e literalmente.

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