sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Rio de Sangue

Água. A mulher que saltava para o rio gelado sabia o que a esperava e mesmo assim saltou, sem dor, com um sorriso tóxico, fantasmagórico, que iluminava a névoa, manto esbranquiçado que cobria o que lhe aparecesse. Matilde olhou a Lua enquanto rodopiava, pensou no que poderia ter acontecido de diferente se não tivesse conhecido Santiago nem Rita. Tudo teria tomado o rumo habitual das coisas, ela continuaria à procura de quem lhe inspirasse os quadros, tomaria a carne de alguns dos seus modelos, para "lhes tirar a essência da arte", apontaria o seu numero de telefone, guardaria o nome com um asterisco, que ela utilizava para marcar aqueles e aquelas com quem já tinha visto " a Lua" e que gostara, e com um ponto de exclamação aqueles que a dose não seria para repetir. Tudo em prole da arte, essa que exige aos inspirados todas as almas e todos os sopros de beleza dos meros objetos do mundo que somos. Mas o Mundo não volta atrás (pior até se o fizesse) e a visão do inferno líquido, frio, mantém-se real perante os olhos negros da suicida aérea, ela que pegara num estilhaço de espelho e rasgara os pulsos alvos, agora poços do inesgotável sangue, poços da morte (essa que apresenta sempre uma pontualidade Britânica).
O corpo embateu por fim na negrura do rio, suspenso no interior do purgatório, entre a vida e a morte. Os olhos balouçavam tristes e tentavam alcançar a superfície, a vida, mas a escolha tinha sido feita, os dados lançados sobre a divinal mesa e as cartas atiradas ao ar. Gritou com uma força minuscula pelos nomes daqueles que a tinham levado àquele rio, (que dizem os velhos de quem ninguém foge) fechou os olhos, respirou a única coisa que a rodeava e... Fim. Nem a vida lhe passara aos olhos, nem as imagens dos pais a ensinarem-na a pintar, nem o primeiro e único homem que amou, nem as noites de luxúria, nem aquela noite que lhe encaminhou o fado, NADA, os olhos apenas se trancaram, a boca escancarou-se e os braços acompanharam o movimento do corpo nu, sem alma.
Na avenida da cidade, jazia um homem e uma mulher numa poça vermelha.Os que primeiro chegaram disseram que se tratava do Dr. Santiago e da Rita, a sedutora pianista da terra. Os velhos diziam que tinha sido uma artista, uma daquelas pintoras que pintam formas imprecisas mas são consideradas Deusas. Esta, andava "engalfinhada" com os dois cadaveres, separadamente, "mas o Sr. Dr. era por quem ela tudo faria, por isso é que ao apanhá-los aos dois em assuntos de lençol os atirou pela janela a baixo".
Já se sabe que os velhos inventam, esmiuçam os factos que ouviram da boca maldicente, porém desta vez façamos o favor de acreditar na sua sábia palavra...
Matilde esborratou o rímel, os cabelos fulvos começavam a ficar flamejantes perante a sua fúria, maldita a hora em que aqueles dois se deitaram juntos, chorou e gritou ate os pulmões arderem de cansaço, chegara a hora de assumir o papel de destino. Levantou-se na ira descontrolada da traição e ergueu bem alto o punhal, ah símbolo tão antigo da justiça, queria vê-los, prazeirentos, a consumirem-se nus no leito do apartamento, onde tantas vezes ela tinha sido consumida por Santiago, a afagarem as faces um do outro contraidas de desejo, sedentas de luxúria e glorificação.
E quanto mais pensava nisto, mais via claro o seu destino curto, de horas, e mais corria, qual louca, para o ninho dos amantes, "esse pombal repugnante", e chorava de raiva, de um pingo de amor pelos dois que tinha sido destruído, um pingo da sua enocência que lhe tinha sido roubado.
Enfiou a chave na ranhura e abriu a porta velha. Rangia. Subiu as escadas quatro a quatro, chegou ao andar, empurrou de leve a porta, que estava ligeiramente encostada e entrou naquele antro de devassidão. Percorreu o longo corredor dourado, coberto pelas suas telas, e chegou ao quarto.
Quando recuperou do primeiro choque que a abateu observou a cena: Rita rasgara a garganta de Santiago e estava cheia daquele encarnado vivo. Dançava sobre a luz da lua, entoava cânticos pagãos e ria-se maniacamente enquanto do outro lado, Matilde tentava digerir as malhas do destino.
"Oh Matilde, eu sempre pensei que soubesses que eu tinha uma atração pela morte" e rodopiava, rápida e efusiva, como se de um palhaço macabro se tratasse. Matilde não se conteve e jogou-se a ela, tentou esfaqueá-la, mas acabou por perceber que ela já o tinha feito a si mesma e que, agora, jazia no seu colo, sorridente, de dentes a mostra.
Não suportou aquela cena de horror, o amor derrotado e esmigalhado em pedaços de carne humana. Quanta dor sofria, quanto o espanto perante a cena e perante Santiago morto, que assim o estava para obdecer ao fetiche de Rita, a demente pianista.
Matilde viu apenas o caimnho do rio, jogou os dois corpos pela janela e quando se ouvio o embate das ossadas no passeio já ela caminhava na penumbra em direção ao rio íman e ao rodopio do fim da vida.
Agora só os velhos podem contar a história de Matilde. E ainda há até quem acredite nas suas palavras.

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