Naquela noite,nada existia no Céu e nada iria existir. Parecia até que o próprio Mundo ainda não tinha sido inventado, e nem o próprio Deus tinha tido pachorra para explodir o Universo e criar vida. Havia, assim,
apenas o silêncio medonho, espalhado por igual pelas ruas da cidade adormecida, e a solidão de corpos quase sem vida de prostitutas (encostadas nas esquinas estreitas) que esperavam os endinheirados magnatas,
É no meio desse negrume, cerrado como se a morte já tivesse levado todos, e dessa má fama, que se observa um brilhar, quase único, de duas pupilas dilatadas que se tentam camuflar no vazio. Para elas ,e para o seu portador, todo aquele ambiente e toda aquela escuridão, provocava uma agonia e um medo que mais ninguém poderia compreender ou sentir. Não era ,certamente, temor do escuro mas , talvez, daquele mal que a tantos persegue : o Amor!
Damião ("Lobo" de alcunha), assim se chamava o protagonista e em certa medida o fio condutor de toda a trama, apresentava uma figura curiosamente parecida com a de um velho marinheiro mas que, pelos contornos da face, se advinhava um rapaz que rondava a casa dos 20, com cabelo até aos ombros e braços fortes. Para além disso, a única coisa que o distinguia de um velho Lobo do Mar era a impaciência, que é coisa que o coração de um jovem conhece como se fosse uma parte do seu próprio corpo e os velhos estranham e repelem. Damião, por sua vez, estranhava ,sim, a paciência e desde que conhecera Leonor deixara de a sentir, em toda a sua totalidade.
Como não a apresentei? Leonor era o fogo que o fazia arder , era todo o seu ar, todo o seu veneno, toda a razão de ele andar escondido. Ora...Coisas de Amantes, já se sabe! Damião era um triste fora-da-lei que se aninhava todas as noites no meio do frio e Leonor era ,a filha do Major, que ansiava voar para além do limite vital. Conheceram-se quando ,de encontrão, tombaram na calçada da baixa e ,desde esse atentado, voavam ,em auras de desejos e de paixão ardente, pelo Oiro das Luas e pelo perfume das Madrugadas, fundindo as suas "caixas de batimentos" num só corpo e dando as mãos por todas as ruas do desespero. Era a tarde dos amantes, porque a noite (essa noite) iria marcar, a sangue, todo o seu futuro!Meia Noite. As badaladas fantasmagóricas dos sinos da Catedral ecoavam nas estradas desérticas e acordaram ,do sonho vivo, o amante. Mergulhara , há pouco, num transe melancólico e sombrio : começara a deixar escorrer pela face ,suja, pequenas gotas transparentes que lhe molhavam o curto bigode e ,exponencialmente, ia largando um gemido de dor ,como se o mal da alma ultrapassasse qualquer maleita do invólucro humano! Era por ela que o "Lobo" uivava. Por ela , por ele e pela possibilidade remota de não mais se verem. De quanta tristeza se enchiam os seus orgãos, e de quanta esperança se enchia a sua cabeça, que parecia levitar quando este se encorvava, direito ao abismo.
Todo o receio do fim começara há pouco, quando o capitão da infantaria, a que a mão de Leonor estava prometida, voltou, são e salvo, da guerra. Damião pensava ,ao longo dos dias, "Era tão melhor que esse coitado morresse em combate e nos deixasse em paz!", mas continuava a sofrer sem se expressar, poupando-se em gestos e exilando-se na inacção pensando, constantemente, naquela a quem o seu coração se entregara por completo.
Não havia solução. Não existia saída do labirínto e matar o Capitão era uma coisa impensável, já que o amante era um "marginal" e tinha sangue oxidado no cartório, e pedir à amada que o fizesse era egoísmo elevado ao extremo. Que o jogo, infelizmente, seguisse o curso que as peças maiores quisessem! Ou será que...
O "Lobo" magicara a única coisa que lhe tinha falhado e conseguira convencer uma amiga de Leonor, a transmitir-lhe o plano : uma fuga para o Brasil! Seria simples, saíriam a meio da noite quando o Cargueiro "Cronos" parasse no porto citadino, e entrariam pela porta da tripulação que ,segundo sabia Damião, era uma entrada sem segurança e sempre vazia. "Fácil demais", pensou no momento, seria uma obra que nem requereria mais de 20 minutos e nem sequer seria necessário usar das suas "habilidades". Sentiu um sabor amargo ,na boca, ele tereria querido inventar um plano mais minucioso, onde ele mostrasse todo o seu conhecimento criminoso e toda a sua perícia na arte de enganar, mas ficou feliz por ter arranjado solução e por ,Leonor, rapidamente ter aceitado e ter combinado a fuga para daqui a dois dias. Agora, esperar seria a solução mais prudente...
Meia Noite e Meia. O som de uma única badalada ,estremeceu-lhe de novo o corpo cansado e, atingiu as entranhas do Mundo, dolorosamente, diluindo-se na Treva e chamando, de novo, o silêncio. Depois do transe veio o desespero. Perguntava-se porque é que ela não aparecia, porque não havia um único sinal seu e, respondia-se com pensamentos devastadores. Que havia ele de pensar? Seria incrédulo? Seria uma vítima? Ou seria ele, também, um criminoso na arte de Amar? Tanta coisa lhe passava em rodapé pela mente, cada frase, cada conjectura, lhe feria ainda mais o seu coração, e ele só queria um gesto, um ponto de luz ,naquele túnel sombrio e gelado, pior que o inferno; com isso morreria ou ir-se-ia embora feliz.
Começou a andar, destroçado e farto de esperar por um "D.Sebastião de saias" que não viria, quando ouviu uma voz trémula chorosa e alta que chamava por si:
- Damião!
Era ela. Que contentamento desconcertante o invadiu, por fim.Correu para ela, seguindo a voz, e encontrou-a ,ofegante e chorosa, encostada a um barril.
Trocaram olhares ternos e desconfiados.Esboçaram um sorriso que lhes aconchegou o peito e agarraram-se, eclipsando-se num beijo apaixonado, naquele cenário terrível. Riram-se com os olhos e, por fim, deram as mãos. Depois de minutos sem fôlego, ela falou:
- Desculpa! Eu sei que tinhamos combinado às 22h00, mas ...
- Não preciso de desculpas! Vamos, o cargueiro só parte à 1h!
- Não estás a perceber! O meu pai impediu-me de sair e disse que sabia que nós íamos fugir! Ele conheçe-te Damião, ele sabe do teu historial e chamou uns amigos do Capitão para nos perseguirem e te matarem. Eles vão cercar o porto, em pouco tempo.
A má notícia explodiu e os seus estilhaços feriram todo o intelecto do génio do crime. Ele tinha-se esquecido, da influência animalesca do Capitão e, das paredes velhas da cidade, que eram, ainda, construídas sobre o ideal da cusquisse, e do dinheiro que ela trazia. Para onde, agora, haviam eles de fugir? Mais perguntas invadiram-lhe o pensamento e todas elas, resultavam, num tumulto interior. Só lhe poderia perguntar uma coisa:
- E como é que tu escapas-te?
- O meu pai esperou por eles e foi com a "matilha". Eu fiquei sozinha e corri o mais que pude até aqui.Sei, que pensas, que estamos encurralados, mas existe uma solução!
- Qual ?- perguntou ,quase desapontado, por não lhe ter passado essa escapatória pela cabeça.
- Existe um porto, pouco conhecido, do lado este da cidade. O meu pai costuma pescar naquela zona, tem lá um bote atracado.
O Major a pescar e ainda por cima, num modesto bote? A ideia pareceu-lhe extremamente peculiar e divertida, tinha até vontade de gargalhar e, só não o fez, porque não seria bem interpretado e aquela escura noite, tinha tudo menos graça. Arrumou ,assim, o humor numa gaveta, trancou-a, e concordou com a ideia dela. Apertou-lhe a mão e, ambos correram com a força que o corpo lhes tinha reservado para aquele momento, parecendo até que o tempo ficara mais lento e eles o tinham ultrapassado num truque de magia. Ah! Era tão poderoso o elo que os unia, tão poderoso o seu magnetismo que, em nenhum lado da viagem, se largaram e, só quando chegaram ao destino, recuperaram o ar que tinha ficado ,como rasto, pelo caminho.
Desamarraram-se um do outro. Ele desatou o complicado nó que unia, o barco àquele monte de madeira velho e ,pegando na mão da amada, transportou-a para dentro, agarrando os remos e começando a fugir daquele decadente porto romano, daquela vida tenebrosa.
A meio do rio parou, para contemplar as estrelas e a Lua, que agora começavam a despontar na estrada do Céu. Olhou para Leonor e sentiu a paz, a paz que nunca na vida tinha sentido.Era ela que levaria ao altar,
e seria ela que lhe acalmaria, o turbilhão de tormentos e pecados que o vinham visitar á noite, no tempo dos pesadelos. Não deixaria que ninguém os separasse e iria venerá-la como a Deusa mediterrânica que era : cabelos longos e castanhos sempre perfeitamente penteados, lábios carnudos e vermelhos, olhos verdes, pele bronzeada e um geito de rainha! Enquanto pensava nisso, jogou a mão ao bolso para tirar o anel, que tinha roubado, para lhe oferecer, mas nada sentiu, nem sequer o seu punhal de estimação . "Devo tê-los perdido", fez uma cara de desilusão quando pensou nisto mas, rapidamente, se cansou da tristeza e pegou nos remos, ansioso por sair dos limites daquele mundo malvado.
- Nunca me falaste do teu passado. Tu conheces tudo de mim e eu nada conheço de ti! Porque nunca mo contaste?
Sempre temeu esta pergunta, e quando ela a fez , ele sentiu o chão a cair-lhe, e um poço de fogo a abrir-se debaixo dos seus pés. Nunca lhe falara do seu passado, era um facto, mas porque ele a queria proteger do passaporte para a desgraça, que ele o era. Tentou tapar a pergunta e matá-la naquele instante:
- É pouco interessante e não tem graça. Tu sabes o essencial e sabes que eu te amo, não será isso, tudo aquilo que devemos saber um do outro, que nos amamos?
- Se não é importante, porque é que te escondes sempre que um polícia passa?
Escorreu-lhe uma gota de suor pela testa que, automáticamente, aniquilou com a mão. Ele não lhe podia contar, não agora, que estavam prestes a escapar.Talvez mais tarde, quando assentassem num sítio seguro, ele explodisse e lhe dissesse, a chorar, tudo aquilo que tinha feito, à 10 anos atrás, quando ainda era um jovem de 17 anos. Mas agora? Ele não teria coragem!
- Então?
Ignorou-a. Ela persistia no fim do Conto de Fadas, e, sem saber, na caminhada lenta para um conto terrorífico de Alan Poe.Que havia de fazer? Seria melhor conservar o silêncio como aliado e, fingir que não a ouvia.
Perdido nos seus pensamentos e ocupado a não se comprometer, Damião desconhecia por completo que Leonor estava mesmo atrás de si, só o reparando quando ela lhe pôs a mão direita sobre o seu ombro esquerdo, sussurando, tenebrosamente, umas palavras feridas e tristes:
- Eu sei o que tu fizeste!
Poderia ser? Poderia ela ter descoberto o seu pesadelo? Tentou-se virar, para perceber o que é que ela sabia, quando sentiu as suas costas rasgarem-se ,e serem trespassadas por uma lâmina fina e afiada.Esbugalhou os olhos, não porque a facada lhe tivesse doído, mas sim porque se sentia traído! Perguntou-lhe:
- Porquê?- gritou enquanto uma lágrima caía entre soluços.
- Não te lembras de mim, há 10 anos atrás? Talvez te lembres de uma menina de 8 anos que vinha do Bosque com a mãe, num coche, quando , de repente, saltou uma trupe de saltimbancos ,dos arbustos junto à estrada, e mataram os cavalos para que ninguém pudesse escapar dali. Abriram-nos as portas, apontaram-nos as armas às cabeças e mataram o cocheiro. Exigiram o nosso dinheiro mas minha mãe tinha-o gasto na Cidade e nada lhe tinha sobrado. Implorou de joelhos que nos deixassem viver, mas a fúria tomou o chefe do grupo e mandou o mais novo , pegar no revolver, e matá-la. Ele fê-lo sem dó nem piedade, em frente a mim e deixou-me, como os restantes, sozinha no meio do Bosque com o vestido salpicado de sangue e de lágrimas.Só fui encontrada na semana seguinte.
Ele não podia acreditar.Ela era a menina que ele deixara frente à cara da mãe, quando premiu o gatilho e lhe acertou com uma bala ardente no pescoço, sem dó e coagido com a opção da morte. Ela não sabia isso, mas a frieza do golpe marcara-lhe toda a vida e fechara-lhe a porta da felicidade. Que monstro fora, que monstro era!
- Desculpa-me!- sussurou agarrando o peito ensanguento, desiludido com a sua ingenuidade e com o seu amor traído. Merecia morrer assim, pensava ele, com a única coisa que o poderia ferir naquele mundo de ilusão.
Viu o Mundo a caír e a desvanecer-se. Ela tentou segurá-lo mas ele caiu na água e afundou-se lentamente rumo ao esquecimento, sem saber que Leonor o amára e por isso tinha escolhido matá-lo impossibilitando o Capitão e o Major de o fazerem. Damião era o ladrão da sua infância, mas o coração, escolhera-o e ,Leonor, martirizara-se por isso mesmo, antes de lhe ter cravado aquela lâmina obscura no corpo.
Chorou, gritou e, de tanta tristeza, secaram as suas lágrimas. Quis sair dali, levou o barco a terra e desapareceu com o vendaval que se levantou.
Nada mais se soube dela (dizem que se suícidou), nem do Capitão, nem do Major.No mapa desapareceu aquela maldita cidade, e nunca mais se ouviram falar, das suas horriveis histórias de amor.
és sem dúvida uma fonte de inspiração
ResponderEliminare tu és a minha infinita luz :)
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