terça-feira, 29 de outubro de 2013

Quimera

Espessa era a noite. O astro luzente tinha sido engolido por um qualquer estranho poço celestial, subsistindo, assim, um céu sombra, venenoso como o amor, que encobria com o seu manto de petróleo qualquer rasto luminoso ou ponto brilhante. Ao fundo, o mar, que murmurava canções tristes, embalava as areias, sossegava os agrestes rochedos e vociferava maldições aos transeuntes, esses que passeavam, serenos, automáticos, acima das grandes paredes que o aprisionavam; acima desse pulsante Inferno.
As lajes dos passeios eram sulcadas pelos passos imprecisos das criaturas noturnas, corujas e morcegos que pediam por gotas de álcool que lhes jorrassem pelas gargantas, que os libertassem desse peso da existência, que os ajudassem nessa missão ancestral,como os tempos,de persuadir a fêmea a alongar-se no seu leito de pesadelos e furores.
Rompendo o céu viscoso e o ciclo vicioso daquelas vidas apagadas, veio M., aparição das aparições, brotando de um qualquer buraco mágico que eu, reles homúnculo, não consegui encontrar. Fantasiei, então, que teria chegado por um portal bordado de nuvens, comunicação entre esta terra dura e repelente e um Olimpo distante, resguardado das pupilas curiosas dos homens.
Os pés descalços, brancos como flocos de neve, contrastavam com as pedras sujas da calçada, pejadas de resquícios de dejetos canídeos e de pastilhas elásticas pré-históricas, que adquiriam aquela cor negra antes de conhecerem a verdadeira transformação e se tornarem em pedras, também. O vestido, de seda cinzenta, com um cordão de ouro que lhe apertava a cintura delgada, cobria-lhe as forma escorreitas,desde as pernas marmóreas, passando pelo ventre puro, até àquele pescoço de escultura renascentista, esculpido pelo Michelangelo até à perfeição láctea.
Eu, cambaleante, andrajosamente vestido, bêbedo, acho, fui fulminado pelo brilho pálido daqueles seus olhos de terra húmida (a que é esfaqueada pelas primeiras chuvadas do ano), seu corpo de água, mel e sangue, que me alagava meus seixos sem luz de um charco iluminado. Parecia haver salvação para esta alma maldita, maliciosa, naqueles cabelos cor de fogo que me ardiam e despedaçavam em cinza.
- M. - Chamei. pálpebras escancaradas de felicidade e susto.
Balbuciei isto e tentei agarrar-me às suas canelas. Fugiu-me. Trôpego, louco, caio por terra e arrasto-me à sua procura. Ela ri-se, da minha figura de estúpido, talvez, a tentar encontrar a felicidade que se esgueira pelos meus rudes dedos. E cada vez mais M. se distancia de mim, ouvindo-se o ecoar do seu doce e contundente riso por todos os lados.
Num segundo se esvai deste mundo e o que fica sou eu, rodeado das paredes lívidas, visto que o cenário do Mundo caiu. Talvez tenha morrido, penso, talvez tenha sido agora o fim.
Acordo sobressaltado, ofegando como um cavalo depois da batalha, suores a escorregarem-me da testa até ao pescoço e a inundarem-me de completa confusão. "Foi tudo um sonho?", indago-me interiormente. Não sei, não posso saber.
Levanto-me e vou beber um copo de água, para esquecer a miragem. 

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