Deus costurava abismos na imensidão de um mundo de neblina, de fogo morto, de estrelas decadentes que rebolavam na lama, quando apareceste tu, vestida pela brisa noturna que me aconchegava as minhas asquerosas fossas nasais ( e que nome tão feio esse!). Eu que sempre quis companhia, um Adão colocado no quintal de uma casa de campo, rodeado por uma árvore que não falava e que, diziam uns, sabia mais que todo o ser criado nesse sexto dia de existência terrena.Vi-te a romperes a minha vista, o meu horizonte imaculado, e a manchá-lo com a tua imagem tentadora, de Eva possuída pelo desejo de me oferecer uma maçã forjada pelas mãos belas do Príncipe dos Infernos, o meu senhorio que sempre me perseguia para eu lhe pagar as dívidas, as rendas em atraso. Eu não me importava com isso. Importava-me, agora, contigo, se me achavas suficientemente capaz de te servir, de te lamber os dedos pérfidos e perfeitos dos teus pés nus, que branqueavam o caminho sujo que terminava na portinhola branca, de tábuas (como nos filmes americanos).
E vieste. O céu de vidro, que nos cobria as cabeças, abria, e das frechas resultantes da tua chegada caía uma chuva inexplicável de sangue, talvez divino. Foi nesse instante que me aproximei, aproveitei da oportunidade do teu cabelo negro se tornar num rio de morangos sangrentos para te tentar beijar. Não deixaste, deste-me antes um beijo na testa, perto do couro cabeludo.
Detestei. Beijos na testa dão-se a ex-namorados ou a pessoas com doenças terminais. EU NÃO ERA NADA DISSO, apenas um romântico incurável, um peregrino que ansiava pelo sofrimento da tua vinda.
Percebi que não querias que te amasse; entendi que amavas o meu senhorio e a maldição e o sangue e o dinheiro que lhe banhavam o corpo. Estava farto de não conseguir que me amassem e , por isso, pedi a Deus que se deixasse do espetáculo horrendo, que te deixasse seguir para casa impune. Retomada a vida normal, afundei-me no caos da tua partida e deixei-me embalsamar pelos químicos do tempo.
Escrevi em todas as Bíblias do Universo, antes da chegada dos humanos, o teu nome, Eva, pecadora dos pecadores. Comi a maçã da sabedoria e soube que nunca mais te iria ver. Triste dia este em que soube tal. Triste este meu, um dia nosso, pecado/ amor original.
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