M. foi sempre a constante universal que regeu todos os passos dos homens que a viram alguma vez na vida, mesmo que tenha sido um olhar de esguelha, uma ingénua troca de visões na passagem breve de um passeio para o outro. M., de massacre, de morte, de mar, de maravilha, foi a Deusa que os humanos imploraram para ter e que não souberam aproveitar. Aliás, se me permitem essa indiscrição, foram mais os homens que aproveitaram a sua existência do que ela da sua divindade perpétua e, ao mesmo tempo, tão curta como a vida de uma borboleta.
Não são precisos nomes para falar de amor, nem alcunhas, nem pseudónimos, talvez, quanto muito, letras sozinhas, fechadas, permitindo uma previsão vaga e uma aura de secretismo. Mas para ti M., se me ouvisses agora, para ti nada é capaz para te poder definir. Nem a mísera letra que enuncio tem capacidade. É só um símbolo e tu és um todo, um alfabeto de letras muitíssimo mais valorosas de te definir, ainda que nem eu nem os meus semelhantes o conheçamos.
Basta-me acenar ao longe, M., deste barco perdido na infinitude do teu rio, esperando a calma das tuas margens, o abrigo oferecido pelo sopro do teu espírito.
Basta-me repetir-te com a minha boca suja, seca da tua saliva que se perdeu nas cavernas da minha língua. Basta-me ter sede para cair na tua imagem, para lembrar-me do que foste e do que eu nunca fui contigo.
E é sempre o mesmo ardor que me ataca quando te chamo, sempre as mesmas reticências que me invadem quando me pergunto por ti. M…, m de miséria, aquela que eu vivo sem ti.
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